Brasil ajudará Suriname a reformar Defesa

Ministros brasileiros e do país vizinho se reuniram para ajustar os termos da cooperação

ROBERTO GODOY, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2012 | 03h02

O governo brasileiro vai apoiar a reorganização da estrutura militar e de Defesa do Suriname, país de 487 mil habitantes e 1.840 soldados, na fronteira norte.

Na semana passada, os ministros da área de ambas as nações, Celso Amorim e Lamoure S. Latour, reuniram-se na sede da Embraer, em São José dos Campos, para ajustar os termos da cooperação. O Suriname quer adquirir de dois a quatro Super Tucanos, turboélices de ataque leve. Quer também navios-patrulha de 500 toneladas, da Emgepron, empresa mantida pela Marinha. Latour disse que os seis blindados Cascavel EE-9, armados com um canhão 90 mm, e os 15 Urutus, para transporte de tropas, recebidos do Brasil em 1983, precisam passar por um processo de revitalização. As forças surinamesas necessitam de 100 caminhões e cerca de 80 veículos diversos. Gostariam de mandar oficiais para as escolas de formação do Brasil.O pacote inclui ainda um sistema eletrônico de comunicações.

Empresários do setor ouvidos pelo Estado avaliam que os negócios em discussão podem chegar aos US$ 150 milhões - dependendo das especificações, por exemplo, dos componentes de bordo dos aviões e dos navios. Isso significa 8 vezes o orçamento anual da Defesa do Suriname. Nos últimos seis exercícios, essa rubrica tem variado em torno de US$ 20 milhões.

Aos negócios. O ministro da Defesa, Cels0 Amorim, determinou ao secretário de Produtos de Defesa, Murilo Barboza, que faça a avaliação da abertura de uma linha especial de crédito para atender à demanda do Suriname.

O problema ficou para a última parte do encontro, com a participação dos quatro chefes militares brasileiros - almirante Júlio Moura Neto, da Marinha, general Enzo Peri, do Exército, brigadeiro Juniti Saito, da Aeronáutica e general José de Nardi, do Estado-Maior Conjunto. O ministro Latour solicitou a criação de mecanismos para ter acesso aos dados do satélite brasileiro de sensoriamento remoto e também a informações produzidas pela sofisticada rede digital do Sipam, o Sistema de Proteção da Amazônia. Latour considera a ferramenta indispensável para combater ações ilícitas, como voos clandestinos do tráfico de drogas e de contrabandistas.

É um tema delicado. O atual presidente do Suriname, Dési Bouterse, eleito em 2010, foi condenado na Holanda a uma pena de 11 anos, que pode chegar a 16, por tráfico de drogas. Alega que se trata de "armação política". O DEA, agência antinarcóticos americana, qualifica o país como uma importante conexão das rotas de circulação de cocaína.

Aos 65 anos, tendo ocupado a presidência nos anos 80, Bouterse escapou de ter seu país invadido pelos Estados Unidos há pouco menos de 29 anos. A intervenção foi feita pelo governo do Brasil. O presidente era João Figueiredo, que recebeu em abril a informação de que o presidente Ronald Reagan havia decidido pela intervenção militar no Suriname. A inteligência americana havia comprovado a presença de soldados de Cuba no país. Seriam cerca de 400 deles, em instalações fechadas, com características de centros de treinamento.

A presença de um núcleo multiplicador da revolução socialista cubana no continente era inaceitável. Figueiredo reagiu depressa. Mandou a Paramaribo, no avião presidencial, o general Danilo Venturini, secretário do Conselho de Segurança Nacional, com a missão de oferecer ao líder surinamês, o mesmo Desi Bouterse, suporte técnico em setores estratégicos, linhas de crédito e parceria em programas de infraestrutura - com o compromisso de afastamento rápido e inequívoco de Havana.

Deu certo. No dia 26 de outubro o embaixador cubano, Oscar Cardenas, deixou o país. Seis dias mais tarde só o zelador permanecia na representação diplomática. O episódio implicou uma certa tutela brasileira sobre o Suriname. Foi aberto um crédito de emergência de US$ 10 milhões e o Brasil entregou os 21 blindados Cascavel e Urutu.

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