'Brasiguaios' temem massacre na fronteira

Sem-terra paraguaios ameaçam agricultores brasileiros; conflito é iminente, mas não há reforço policial

José Msria Tomazela, de O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2012 | 03h06

SOROCABA - Pelo menos 7 mil "carperos" (sem-terra paraguaios) concentram-se em Santa Rosa del Monday, região do Alto Paraná, no Paraguai, fronteira com o Brasil, a 57 quilômetros de Foz do Iguaçu (PR). Armados, eles querem expulsar os "brasiguaios", como são chamados os agricultores brasileiros que migraram para a região nos últimos 40 anos, sob a alegação de que as terras foram griladas e devem ser retomadas para a reforma agrária.

De acordo com o presidente do Sindicato Rural de Ponta Porã, Jean Pierre Paes Martins, a iminência de um conflito gera um clima de tensão em toda a zona de fronteira. "Produtores brasileiros de soja e de gado no lado paraguaio estão preocupados. A insegurança é total", disse.

Segundo ele, embora o presidente paraguaio Fernando Lugo tenha assumido o compromisso de evitar o conflito, ainda não ocorreu o envio de força policial com capacidade para conter um possível ataque. "O número de sem-terra é muito grande e a polícia que está lá não está preparada para evitar um enfrentamento."

Na quarta-feira, o policiamento foi reforçado com a chegada de 200 policiais. Novos grupos de sem-terra, porém, acamparam em áreas rurais de Santa Rita e Ñacunday, na mesma região. As informações que chegam a Ponta Porã dão conta do deslocamento de mais "carperos" para a área de conflito.

Ocupação. Os "brasiguaios" converteram as terras do Alto Paraná, antes ocupadas por matas, numa vasta região agrícola. A ocupação teria sido estimulada pelo ex-ditador Fernando Stroessner, que governou o país de 1954 a 1989. Na época, Stroessner revogou uma lei que limitava a venda de terras para não paraguaios e incentivou a presença dos agricultores brasileiros.

As plantações de soja estão entre as mais produtivas do país e, segundo Martins, transformaram o Paraguai em grande exportador do grão. Os brasileiros alegam que Lugo incentivou a reação dos sem-terra ao aprovar no Congresso uma lei que proíbe a venda de terras a estrangeiros numa faixa de 50 quilômetros da fronteira. O governo ameaçou anular títulos de propriedade de 257 mil hectares, alegando ter havido sobreposição das áreas tituladas. A região engloba cerca de 10 mil propriedades rurais e urbanas onde vivem 50 mil "brasiguaios". Desde então, as fazendas de brasileiros passaram a ser alvo dos "carperos".

O fazendeiro Pedro Navarro, de Ponta Porã, conta que esteve na região há dez dias e viu produtores brasileiros acuados e sem poder sair de casa. "Os sem-terra estão acampados nas áreas de lavoura e o agricultor não pode trabalhar." Segundo ele, a polícia paraguaia parece apoiar a ação dos "carperos". "Os policiais ficam só observando, enquanto os sem-terra pegam coisas e matam animais." Em todo o Paraguai vivem cerca de 350 mil brasileiros, a maioria agricultores.

O Paraguai é o quarto exportador mundial de soja. Apesar disso, com a promessa do presidente Lugo de fazer a reforma agrária no país, os conflitos fundiários se multiplicam.

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