Bomba explode na OAB do Rio e 3 são destruídas

O episódio, que não deixou feridos, seria uma tentativa de intimidar o advogado Wadih Damous, que assumirá a Comissão da Verdade no Rio

FÁBIO GRELLET / RIO, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2013 | 02h12

Um artefato explodiu na tarde de ontem na escadaria que liga o oitavo e o nono andar do prédio onde funciona a sede estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio, na Avenida Marechal Câmara, no centro. Ninguém se feriu, mas a explosão causou pânico. O ataque seria uma tentativa de intimidar o advogado Wadih Damous, que presidiu a OAB-RJ até fevereiro e assumirá na segunda-feira a presidência da Comissão da Verdade do Rio.

Avaliação preliminar dos destroços indica que se tratava de uma bomba conhecida popularmente como "cabeça de nego". Logo após o episódio, o Corpo de Bombeiros informou ao presidente estadual da OAB, Felipe Santa Cruz, ter recebido denúncia anônima segundo a qual três artefatos - dois explosivos e um de efeito moral - seriam detonados no prédio da OAB-RJ.

Orientado pelos bombeiros, Santa Cruz determinou que o prédio fosse evacuado. O Esquadrão Antibombas da Polícia Civil foi chamado, promoveu uma varredura no local e localizou, intactas, três bombas semelhantes.

A informação de que o ataque seria uma tentativa de intimidar Damous foi recebida pelo disque-denúncia. A Comissão da Verdade do Rio será responsável por investigar, no âmbito estadual, ações cometidas pelos órgãos de repressão durante a ditadura militar (1964-1985).

Provocação. "Considero isso uma provocação. O primeiro caso que vamos investigar na Comissão da Verdade será a morte da secretária Lyda Monteiro, em 1980, aqui na sede da OAB, com uma carta-bomba. É possível, e isso as autoridades policiais vão esclarecer, que os autores desse atentado de 1980 possam ter tomado uma atitude extrema. Mas isso em nada vai recuar o trabalho da comissão", afirmou Damous.

De acordo com a OAB-RJ, estava programada para ontem uma reunião na entidade, da qual Wadih Damous participaria, para discutir a exclusão de dez advogados. "A OAB lamenta profundamente que sombras do passado, contra a qual a ordem sempre lutou, reapareçam em tempos de democracia", afirmou Santa Cruz.

Carta-bomba. Às 13h40 do dia 27 de agosto de 1980, uma carta-bomba endereçada ao então presidente do Conselho Federal da OAB, Eduardo Seabra Fagundes, foi recebida por sua secretária, Lyda Monteiro, de 59 anos. A bomba explodiu nas mãos de Lyda, que morreu a caminho do Hospital Souza Aguiar. Um outro funcionário da OAB foi ferido, mas sobreviveu.

O atentado nunca foi esclarecido, mas é atribuído a grupos militares extremistas de direita, que combatiam a redemocratização defendida até mesmo pela OAB. No mesmo dia, outras duas cartas-bomba foram enviadas ao gabinete do então vereador Antônio Carlos de Carvalho (PMDB-RJ) e à sede do jornal Tribuna da Imprensa, mas não causaram mortes.

Cerca de 6 mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre de Lyda e, após o episódio, a OAB decidiu criar a Comissão de Direitos Humanos.

Quando o atentado completou 30 anos, em 2010, Damous defendeu a reabertura do inquérito policial que investigou o atentado na ocasião.

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