Bolsonaro uniu agenda liberal ao conservadorismo

Autodenominado ‘patinho feio’ da eleição, candidato do PSL tomou para si os discursos antipetista e patriota, driblou polêmicas de aliados e recuou de radicalismos

Constança Rezende e Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2018 | 05h23

Agosto ainda não havia chegado quando o nanico Partido Social Liberal (PSL) oficializou, numa manhã de domingo, a candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro à Presidência da República. No evento, realizado em um espaço de convenções da região central do Rio, Bolsonaro foi tratado como já costumava ser recebido nos aeroportos em suas constantes viagens pelo País: sob gritos de “mito”. Respondeu aos apoiadores com uma autoavaliação: “Sou o patinho feio desta história”.

Tentando se descolar dos pares da política tradicional, mesmo após 27 anos exercendo mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, Bolsonaro enfrentou nos últimos 73 dias sua mais contundente campanha eleitoral. Se enfatizou o discurso antipetista, que lhe garantiu lugar em um dos polos da disputa, o candidato do PSL não abandonou o estilo conservador nos costumes. Seu maior ponto de inflexão foi vestir o figurino de liberal na economia, sustentado na parceria com o economista Paulo Guedes, seu “Posto Ipiranga”.

A combinação conservador/liberal de Bolsonaro desbotou ao longo da campanha em meio ao cabo de guerra dos interesses que envolvem uma batalha presidencial. Resiliente na liderança da disputa, ele venceu o primeiro turno com 49.276.990 votos. O candidato do PSL oscilou e recuou sobre temas como privatizações de estatais e fusões de ministérios, além de ser obrigado a desautorizar ideias lançadas pelo vice em sua chapa, o general Hamilton Mourão (PRTB), como uma nova Constituição feita sem representantes eleitos, por “notáveis”, ou mudanças no 13.º salário.

Imutável, porém, foi o discurso agressivo contra o PT, simulando armas de fogo com as mãos em palanques e atacando políticos. Bolsonaro, de 63 anos, só mudou o ritmo de sua cruzada após sofrer um atentado a faca na cidade de Juiz de Fora (MG), em 6 de setembro.

O ataque mudou o tom de sua campanha, que se deslocou dos encontros com multidões nas ruas para um quarto no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Nos 23 dias neste ambiente sua candidatura cresceu nas intenções de voto. Após receber alta, mas ainda em recuperação, Bolsonaro se entrincheirou em sua residência no Rio, intensificando a campanha via redes sociais. 

A onda que elevou seu apoio no primeiro turno impulsionou uma bancada parlamentar do PSL que sugere provável maioria no Congresso. Dez dias depois do primeiro turno, embalado pelo desempenho nas urnas e pelas primeiras pesquisas, Bolsonaro chegou a esboçar um discurso de tolerância e moderação ao contabilizar “18 milhões de votos” de vantagem sobre o petista Fernando Haddad. Sentindo-se “com a mão na faixa presidencial”, Bolsonaro disse à época que considerava “difícil” que o adversário tirasse a diferença na urna. 

Neste clima, passou a receber em casa delegações de apoiadores, como empresários, religiosos e bancadas setoriais do Congresso, como a BBB (boi, bala e Bíblia) – todos de olho na formação de um eventual governo. Entraram em pauta nas reuniões temas como a folha de pagamento das empresas, a reforma da Previdência e até o projeto de liberação da venda de armas de fogo para civis.

Na reta final, porém, com as pesquisas apontando uma redução na vantagem sobre Haddad, o candidato do PSL voltou a centrar fogo no campo político do adversário. “Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa Pátria”, atacou Bolsonaro, retomando a retórica do combate à “petralhada” dos primeiros dias da campanha. Em discurso transmitido por celular desde sua casa para manifestantes que se encontravam na Avenida Paulista, em São Paulo, ele bateu pesado. 

A retomada desse tom levou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) – de quem o deputado, na década de 1990, já defendeu seu fuzilamento – a se manifestar classificando a posição do presidenciável de “inacreditável”. “Um candidato à Presidência pedir às pessoas que se ajustem ao que ele pensa ou pagarão o preço: cadeia ou exílio. Lembra outros tempos”, escreveu FHC.

Em uma “live”, na quarta-feira, Bolsonaro apertou os argumentos também com seu pessoal. Pediu a ajuda dos 52 deputados federais eleitos pelo PSL para uma mobilização nesta reta final da eleição. Ele chegou a criticar o engajamento do grupo que, em sua opinião, estava sendo “muito fraco” e aproveitou para insinuar uma dívida com ele pelas suas votações. “Parece que vocês se elegeram por mérito próprio”, ironizou.

A poucos dias da eleição, Bolsonaro anunciou três ministros: Paulo Guedes para a Economia, o general Augusto Heleno para Defesa e o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS) para Casa Civil. O astronauta Marcos Pontes também é cotado, para a Ciência e Tecnologia. 

Bolsonaro teve de recuar. Pressionado por apoiadores que se movimentam pela formação do governo, ele afirmava que pretendia unir os ministérios de Agricultura e Meio Ambiente. A proposta, no entanto, provocou reações internacionais de países-membros do Acordo de Paris. E, na última quarta-feira, cerca de 40 empresários, de 17 Estados, foram à casa do candidato e saíram de lá carregando a mudança de posição: pelo menos por enquanto, Bolsonaro não lhes garantiu a união dos ministérios. No dia seguinte, ele negou também que vá defender a saída do Brasil do Acordo de Paris.

‘Fake news’. Formado oficial do Exército em 1977 na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), ex-paraquedista e ex-vereador do Rio, com a carreira marcada pelo ataque às posições políticas da esquerda, Bolsonaro teve de enfrentar nos últimos dias da campanha repercussões negativas provocadas por pronunciamentos de seu grupo político. 

Após a divulgação do vídeo no qual o filho Eduardo Bolsonaro, deputado federal por São Paulo, fala que bastariam “um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF)” em caso de a Corte tomar decisões contrárias aos interesses de um eventual governo Bolsonaro, o capitão reformado teve de ir a público declarar que discordava dos argumentos e que já tinha “advertido o garoto”. 

Houve ainda o baque sofrido pelo debate sobre notícias falsas (fake news) com um cerco a um dos pilares de sua estratégia eleitoral, o uso das redes sociais, colocado em xeque por denúncias de abusos de WhatsApp e pela suspensão de páginas do Facebook, conforme mostrou o Estado no dia 22.

O remédio adotado por Bolsonaro foi voltar a fincar pé na plataforma conservadora que sustenta restrição ao atual modelo de sociedade e costumes, segundo conceitos religiosos contrários ao aborto e a liberdade de gênero, além de manter o culto com elogios, repetidos há anos por ele e seus aliados mais próximos, a personagens polêmicos dos tempos da ditadura.

Bolsonaro não alterou a decisão de evitar debates da campanha, alegando motivos de saúde, apostando na internet como principal ferramenta. Mas também neste quesito, fez ajustes. Aproveitou os últimos dias de propaganda na TV para trabalhar a imagem pessoal nas inserções no programa eleitoral. Buscando um discurso voltado à família, apresentou sua mulher, Michelle, mãe de sua caçula, Laura – a mesma que ele disse ter “fraquejado” quando nasceu uma menina depois de quatro filhos homens. “Jair tem um brilho no olhar diferenciado. Ele é um ser humano maravilhoso”, disse Michelle, no programa da quinta-feira, na tentativa de reduzir a imagem de “patinho feio” do candidato.

AS PROPOSTAS

1. Economia. Privatização de estatais e corte de gastos do governo estão na base da plataforma de Bolsonaro para reativar a economia. Ele propõe que recursos obtidos com privatizações e concessões sejam, obrigatoriamente, utilizados no pagamento da dívida pública. Em declarações públicas, no entanto, o candidato chegou a contrariar o plano e indicar que a privatização da Eletrobrás não está garantida.

2. Impostos. A reforma tributária defendida pelo PSL prevê simplificação e unificação de tributos federais, sem entrar em detalhes, e a descentralização e municipalização de impostos. O plano de governo de Bolsonaro dá ênfase à revisão do pacto federativo, para que Estados e municípios tenham mais recursos. Sobre o Imposto de Renda, a equipe da campanha promete isenção de cobrança para quem ganha até cinco salários mínimos.

3. Educação. A principal proposta é a construção de colégios militares, para que em dois anos todas as capitais do País tenham ao menos uma dessas escolas. Bolsonaro diz que não é necessário aumentar o orçamento destinado a essa área, e que mais pode ser feito com os valores que já são repassados atualmente. Outro foco é a alteração do conteúdo e o método de ensino, segundo ele marcado atualmente pela “doutrinação ideológica e sexualização precoce”.

4. Saúde. Prevê a criação de um Prontuário Eletrônico Nacional, cujo objetivo é criar uma base informatizada de pacientes e facilitar o atendimento na rede pública. Também seria criado um credenciamento universal de médicos para que “toda força de trabalho da saúde possa ser utilizada pelo SUS”. O Mais Médicos, segundo ele, passará a possibilitar que médicos cubanos tragam suas famílias para o Brasil, e a verba destinada ao governo cubano pelo projeto pode ser paga diretamente aos profissionais.

5. Homicídios. Não há intenção de mudanças estruturais na organização das polícias. Defende proteção jurídica para policiais em exercício, para que não sejam eventualmente punidos por excessos ou crimes cometidos em combate. A flexibilização do Estatuto do Desarmamento, para facilitar o acesso da população a armas de fogo, é apresentada como medida para reduzir homicídios.

6. Crime organizado. A única menção ao tema é na proposta de ampliar o uso das Forças Armadas no combate a facções e no policiamento de fronteiras, sem entrar em detalhes. Há também a intenção de melhorar a integração entre órgãos estaduais e federais de combate ao crime, sem explicar como isso seria feito.

7. Segurança. A mudança na lei penal para acabar com indultos, saídas em datas festivas e progressão de pena (quando o preso sai do regime fechado para o semiaberto, por exemplo) é uma das principais propostas do presidenciável do PSL para a área de segurança pública.

8. Meio ambiente. Tema não é tratado individualmente e é mencionado apenas no item que propõe a junção de instituições relacionadas à agricultura em uma pasta só. O presidenciável chegou a recuar da proposta em declarações ao longo da última semana.

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