Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Bolsonaro testa popularidade com votação de Carlos em reduto eleitoral

Após fazer campanha em lives, presidente espera votação recorde para filho, que tenta se eleger vereador pela sexta vez

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 10h00
Atualizado 14 de novembro de 2020 | 15h24

BRASÍLIA - O desempenho nas urnas do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos), que tenta se eleger pela sexta vez ao legislativo da cidade do Rio de Janeiro, servirá como um termômetro da aprovação de Jair Bolsonaro em seu reduto eleitoral. Diariamente em publicações e transmissões ao vivo nas redes sociais, o presidente pede votos para o filho, a quem atribui a estratégia de comunicação que lhe deu a vitória em 2018. A mãe dos seus três filhos mais velhos, Rogéria Bolsonaro (Republicanos), também disputa uma cadeira na Câmara da capital fluminense, mas não tem o empenho do presidente. Segundo o Estadão apurou, o presidente se recusou a gravar um vídeo para ex-mulher, apesar dos pedidos do senador Flávio e do deputado Eduardo, os dois outros filhos do casal.

Com a dedicação total do pai, a expectativa no entorno do 'Zero Dois' é que o parlamentar alcance aproximadamente 150 mil votos, um aumento de 40% em relação ao pleito anterior. Em 2016, em plena escalada da popularidade de Bolsonaro, que trabalhava para chegar ao Planalto, Carlos foi o vereador mais votado do Rio de Janeiro e o terceiro do Brasil com 106.657 votos, seis vezes a mais do que em 2012, quando conquistou 23.679 eleitores.

"Na última eleição, ele (Carlos) foi o mais votado. Teve cento e poucos mil votos. Teve mais votos que uma candidata do PCdoB a prefeita. Se Deus quiser, esse ano ele será reeleito. E a gente pede humildemente o apoio do pessoal do Rio de Janeiro pra votar no Carlos Bolsonaro", disse o presidente nesta semana.

Apesar de estar pedindo votos para vereadores de diversas cidades nas suas 'lives' diárias, Bolsonaro, no Rio, só faz campanha para Carlos. Excluída, Rogéria usa fotos do ex-marido e de Flávio no material de propaganda. Nas redes sociais, costuma publicar imagens dos três filhos e tem como uma das bandeiras a defesa da família.

É essa a estratégia para ela tentar voltar à Câmara do Rio após 20 anos. Eleita vereadora duas vezes, ela deixou a política após ser derrotada nas urnas em 2000. Na época, Bolsonaro estava brigado com Rogéria, de que já havia se separado, incentivou Carlos, então com 17 anos, se candidatar. Ele foi eleito com 16.053 votos.

Agora, no mesmo partido de Carlos, Rogéria tentará se beneficiar de uma votação recorde do filho. Para isso, precisará alcançar 10% do quociente eleitoral, conforme regra eleitoral que passou a valer em 2018. Apesar da ausência de proximidade com a mãe nas redes sociais, pessoas próximas à família afirmam que a relação está bem. Procurada, a candidata não quis se manifestar.

Além de Rogéria, o amigo de longa data e ex-assessor Waldir Ferraz, que diz ter se candidatado com incentivo do presidente, também ficou de fora do "horário eleitoral gratuito" de Bolsonaro. Apesar disso, a exemplo da ex-mulher do presidente, ele confia que pode ser eleito graças ao votos de Carlos. "Acho que ele consegue puxar uns três ou quatro", disse o ex-assessor.

Para Ferraz, o fato de Bolsonaro concentrar o pedido de votos só Carlos é "uma estratégia" e diz não se incomodar de não ser citado. "Eu não me incomodo. Eu mesmo falei que não precisava. Eu me viro. Só o material que eu tenho com ele é suficiente", disse Ferraz, que faz campanha por WhatasApp usando fotos e vídeos que mostram a proximidade com o presidente e com integrantes do governo. Em um deles, Bolsonaro diz: "Ei, Waldir, meu primo preferido".

Apesar da expectativa de votação recorde, o próprio vereador usou uma rede social nesta sexta-feira, 13, para pedir que não cantem vitória antes da hora. "A eleição só se ganha quando se contam os votos... apesar de tudo poder acontecer de forma induzida ou natural, antes e depois do processo encerrado. Jamais cantemos qualquer tipo de grito antes do tempo”, escreveu, publicando um vídeo que o pai pede voto a ele.

'Gabinete do ódio' e 'rachadinha'

Apontado como responsável pela vitória de Bolsonaro em 2018, Carlos segue à frente das redes sociais do pai. Ele indicou Tércio Arnaud Tomaz, José Matheus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz, os três assessores da Presidência que atuam no chamado "gabinete do ódio" sob seu comando. 

A existência do núcleo que alimenta a militância digital bolsonarista com um estilo beligerante nas redes sociais foi revelada pelo Estadão em 19 de setembro do ano passado. Em decisão no âmbito do inquérito das Fake News, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) definiu o "gabinete do ódio" como associação criminosa. Em setembro, Tércio e José Matheus prestaram depoimento à Polícia Federal sobre suas autuações nas redes sociais na investigação que apuro o financiamento de atos antidemocráticos.

Carlos é investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por suspeitas de ter empregado funcionários “fantasmas” e se apropriado de parte dos rendimentos deles por meio da chamada “rachadinha”. A prática, se confirmada, configura peculato – desvio de dinheiro público. O irmão Flávio foi denunciado pela prática em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio, no caso envolvendo o ex-assessor Fabrício Queiroz.

Até junho, Carlos pensava em desistir da reeleição e se mudar para Brasília. Outra hipótese era se mudar para os Estados Unidos, mas acabou optando por concorrer. O vereador faz campanha nas redes sociais e  dispensa as caminhadas e encontro com eleitores. Apesar de não ter aparecido ao lado da mãe nas agendas eleitorais, pessoas próximas à família negam uma crise.

O cientista político Leonardo Avritz, professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não duvida da reeleição de Carlos tanto por ter o presidente como cabo eleitoral como também pela estrutura de rede sociais. Entretanto, destacou que a variação no número de votos pode ser encarada como a avaliação de Bolsonaro em seu reduto eleitoral.“Por esse conjunto de elementos, ele tem a obrigação de ser o vereador mais votado do Rio. Se não for, indicará que já existe uma rejeição ao clã Bolsonaro”, disse o Avritz.

Já Paulo Martins Junior, diretor da escola de Ciência Política da Uni-Rio, avalia que o resultado das urnas revelará se a estratégia bolsonarista de campanha de 2018, com forte atuação nas redes, segue com o mesmo fôlego. “O Carlos é um bom termômetro para o presidente. Ele foi o mais votado nas últimas eleições no Rio. Se aumentar a votação é um bom indicador pra Bolsonaro e vai ascender”, afirmou.

Lista de candidatos

Além de Carlos, Bolsonaro pediu votos para 45 candidatos a vereador em diversas cidades do país. Os “afilhados políticos” foram escolhidos pela relação pessoal com o presidente, caso de sua ex-assessora Wal do Açaí, que concorre a um cargo no legislativo de Angra dos Reis, ou candidatos que ajudaram organizar sua campanha de 2018 pelo país.

Em São Paulo, Bolsonaro pediu voto para Sonaira Fernandes, que trabalhou como assessora do filho Eduardo, e para Clau de Luca, militante que ajudou na campanha presidencial e com quem disse trocar informações quase diariamente.  “Sou apaixonada pelas duas”, disse.

O presidente disse que não elegê-las ficaria mal para ele.  “Olha pessoal, tem que eleger essas vereadoras aqui, se não vai pegar mal pra mim pra caramba. Não eleger prefeito é normal, porque a barra é pesada e lá não temos como ajudá-lo”, disse Bolsonaro, em uma live, admitindo a dificuldade do candidato a prefeito Celso Russomanno (PRTB) ir ao segundo turno.

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