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Bolsonaro segundo a imprensa francesa

Os jornais são tendenciosos em relação à misoginia e à rudeza do candidato do PSL

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2018 | 18h35

Até mesmo o Le Figaro, jornal da grande burguesia e da direita liberal, bate em Bolsonaro cada vez com mais força, à medida que o ex-capitão aumenta sua vantagem sobre os rivais. Ontem, o jornal estava entusiasmado com a notícia divulgada pelo Publica, dizendo que um grupo de extrema-direita seria a causa do endurecimento da ditadura brasileira. Não sem ingenuidade, acreditava que tal revelação prejudicaria Bolsonaro.

Le Figaro aproveitou a oportunidade para salientar a proximidade entre o candidato e os generais de 1964-1985. Ele lembra algumas das proezas de eloquência de Bolsonaro. Por exemplo, em 1991, ele disse que deveríamos assassinar 30 mil corruptos e que, durante o impeachment de Dilma Rousseff, elogiou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos torturadores da ditadura.

Escusado será dizer que o Le Monde, um jornal de alto nível, centro-esquerda, faz o mesmo assunto ser ouvido pela excelente correspondente Claire Gatinois. Bolsonaro é retratado como “insignificante”, ávido por fama e polêmica, ridicularizado por sua ignorância e seus comentários “agressivos, vulgares, misóginos e homofóbicos”.

Esse é o mesmo tipo de candidato antissistema que a esquerda vomita, especialmente a de Lula, mas também a tradicional, que captura o voto “saco cheio” e “não estou nem aí”. “Devorado pela ambição, ele se aproxima dos evangélicos do Congresso, é batizado por um pastor em Israel, adota um discurso antiaborto. É venerado pelas forças da ordem que prometeu anistiar de crimes e tornou-se o queridinho dos fazendeiros aos quais promete liberalizar o porte de armas e permitir o uso mais amplo de pesticidas.”

Mesmas preocupações no The Economist de Londres: “A América Latina está ameaçada de sua parte pelo crescimento do candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro”. No semanário Courrier International, sob o título Reencontrar o Brasil, o editorial escreve: “O pesadelo brasileiro terá um fim? Da história econômica de sucesso à futura fortaleza da extrema-direita, o passo será dado com toda facilidade?”

O jornal da esquerda intelectual, Libération, dedica várias páginas ao Brasil. O cientista político Frédéric Louault, de Bruxelas, mostra a originalidade da votação. Quanto à questão “votar em Bolsonaro seria uma forma de vingança?”, o pesquisador responde: “Já bem antes, a vingança era o motor do MDB, quando ele lançou a ofensiva contra Dilma Rousseff. Mas seu sucessor, Michel Temer, não conseguiu apresentar mais que um saldo negativo, permitindo que os eleitores se voltassem para uma opção mais radical”.

Outra pergunta: “A imagem de ‘Trump tropical’ lhe parece correta?” A resposta vem rápida: “Seu modelo seria mais o filipino Rodrigo Duterte, mesmo que, como o presidente dos Estados Unidos, Bolsonaro simplifica ao extremo as questões e aposta na provocação. Mas Donald Trump não demonstra o desprezo de Bolsonaro pela democracia”.

Todos os jornais são tendenciosos não só em relação à misoginia de Bolsonaro, mas quanto à sua rudeza.

Sobre isso, como no conluio de Bolsonaro com os generais de 1964, a imprensa francesa parece ter cometido um erro de avaliação. Quando ouvimos aqui os ecos da jornada de protesto “Ele Não”, os especialistas acreditavam que as inúmeras mulheres da manifestação iriam reverter a tendência de voto no candidato. Mas parece que não.

Após ligeira queda, as intenções de voto recuperaram-se. Soube-se mais tarde que “mulheres conservadoras” superariam sua aversão a Bolsonaro em nome do “voto útil”. “Só ele é capaz de impedir o retorno do PT”, diz um grupo de mulheres pelo WhatsApp. E a signatária da reportagem do Libération, Chantal Rayes, termina seu artigo com um pedido às mulheres brasileiras: “Acordem!” /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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