Bolsa Família vira arma dos candidatos

Pelo seu potencial entre os cadastrados estão 23% do eleitorado brasileiro –, ele já foi utilizado seguidas vezes, durante a disputa, como munição política

Alexandra Martins, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2014 | 21h30

Na campanha eleitoral, o Bolsa Família virou arma de guerra. Pelo seu potencial entre os cadastrados estão 23% do eleitorado brasileiro –, ele já foi utilizado seguidas vezes, durante a disputa, como munição política entre os candidatos. A presidente e candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT), por exemplo, gerou reação indignada do adversário Aécio Neves (PSDB), logo no início da campanha, ao sugerir que o ex-governador mineiro pretendia acabar com o benefício. O tucano definiu o gesto como “terrorismo” e “irresponsabilidade”.

Ainda como senador, Aécio já havia apresentado um projeto – no momento, aguardando votação no Senado – que dispõe sobre um período adicional, de seis meses, para recebimento do benefício, a título de “aprimoramento”, caso a renda do beneficiário ultrapasse o limite estabelecido por pessoa para a concessão da Bolsa. O Ministério do Desenvolvimento Social reagiu na hora. Em nota divulgada em maio, ele afirmou que a proposta “desfigurava” o programa por “tirar o foco dos mais pobres”. Aécio prometeu, além disso, aumento do Bolsa Família em seu plano contra a pobreza dedicado ao Nordeste.

Mais recentemente, o tucano usou nova artilharia contra Dilma, dizendo que seria preciso “abrir a caixa-preta” do Bolsa Família. “Isso é uma bobagem. Se você entrar no site do Ministério de Desenvolvimento Social encontrará todos os relatórios de avaliação do Bolsa Família. O ministério facilita dados a qualquer pesquisador”, afirma Lúcio Rennó, cientista político da UnB. A pesquisadora Natália Sátyro, da UFMG, também não vê razões para dizer que falta transparência ao programa: “Não existe caixa-preta. É claro que certas informações não podem ser públicas porque ali tem nome, endereço e CPF das pessoas. Mas não há nenhuma burocracia para se pesquisar os dados ou o cadastro dos beneficiários”.

No último sábado, dia 20, Dilma voltou ao ataque. Em comício na zona sul de São Paulo, sem dar nomes nem quando a frase foi dita, ela afirmou: “Tem uns que dizem que o Bolsa Família, nosso programa mais importante, que nós consideramos o programa mais forte para reduzir a pobreza e a desigualdade, junto com o emprego e junto com o aumento de salário, vai acabar. Ora, vai acabar se eles forem eleitos.”

Marina. No outro canto desse ringue eleitoral está a candidata do PSB Marina Silva. Em outubro do ano passado, a ex-senadora pelo PT, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, tornou pública sua falta de entusiasmo pelo Bolsa Família. “Você tem é que buscar a eficiência do gasto público. Tem que acabar, em vez de utilizar, o Bolsa Família. Você poderia ver o exemplo do Bolsa-Ministério: nós já vamos chegar quase ao 40º ministério”, ironizou a ex-ministra.

Mais recentemente, ela voltou à carga. Não dizendo que vai acabar com o benefício, mas cobrando que o sistema de assistência social seja “institucionalizado” – sem detalhar o que isso significaria, concretamente. 

Para Natália Sátyro, a frase de Marina mostra, simplesmente, que cada político “tenta capitalizar em torno disso, mesmo quando não faz sentido”. O Bolsa Família, diz ela, “já está institucionalizado, já tem um arcabouço jurídico. A ideia não tem cabimento”. 

Na avaliação do professor Rennó, Marina “talvez tenha se referido ao fato de o Bolsa Família ter sido implementado, de alguma maneira, por governos de partidos diferentes, mas ainda assim é equivocado dizer isso porque o PSDB já implementava o Bolsa-Escola.” Antes do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, “quem cuidava de assistência social no Brasil era primeira-dama”, lembra o cientista político.

Na semana passada, Marina reagiu de maneira mais dura às insinuações partidas da campanha do PT de que ela acabaria com o programa. Num tom dramático raramente visto na atual campanha eleitoral – que levou Dilma a defini-la como “coitadinha”, ela disse que não acabará com o Bolsa Família porque sabe o que é passar fome. “Dilma, fique ciente, não vou lhe combater com as suas armas. Nós vamos manter o Bolsa Família. E sabe por quê? Porque eu nasci lá no Seringal Bagaço (AC). Eu sei o que é passar fome”, afirmou, em comício realizado no Ceará.

Para Natália Sátyro, essa briga toda é de outra natureza, pois o programa já está “substantivamente completo”, sem necessidade de ser alterado. 

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