Blindagem insustentável

A Rio+20 impõe uma breve pausa à CPI do Cachoeira que poderá dar ares de êxito ao esforço da base aliada para impedir o avanço nas investigações da Delta Engenharia. Nada mais falso: a rejeição à convocação do empresário Fernando Cavendish, dono da empresa, é politicamente insustentável e apenas dá mais nitidez ao objetivo do PT com a CPI - restringi-la à exposição de adversários políticos.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h05

A quebra de sigilos da Delta, cujos dados estão sendo cruzados, estende à base do governo os efeitos da CPI e a inclui entre as vítimas de uma investigação que achou ingenuamente controlável. Foi um raciocínio aritmético que desconsiderou o mais óbvio: o fórum é político, assim como o processo que nele tramita.

Também não parece viável a adoção de uma tática protelatória, com bloqueio sistemático de convocações essenciais, com o propósito de obter o esvaziamento da CPI pela campanha eleitoral, que esquenta a partir do segundo semestre.

Uma CPI excita qualquer campanha, pela munição que oferece a candidatos, como ocorreu com a que levou ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor em 92, ano de campanha municipal.

Há ainda a repercussão política negativa de uma "pizza" em pleno ano eleitoral, o que pode explicar a tentativa detectada na base aliada de transferir para o Palácio do Planalto o ônus da blindagem, sob o pretexto de preservar o governo, cliente preferencial da Delta.

A inidoneidade da empresa, decretada pelo governo, foi o antídoto a essa estratégia. É possível que a CPI não chegue até onde pode, mas ainda vai produzir danos à maioria governista.

Ciro e Quintela

na berlinda

Não é consenso na oposição a proposta dos senadores Álvaro Dias (PSDB-PR) e Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) de afastar os integrantes da CPI que se reuniram com Fernando Cavendish - o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o deputado Maurício Quintella (PR-AL). Alguns preferem constrangê-los como nova votação pela convocação do dono da Delta, rejeitada por apenas três votos de diferença. Até lá, o chamado bloco independente espera ter um resultado parcial do cruzamento dos dados sigilosos da Delta, sobre os quais se debruça na semana de recesso da Rio+20. Por ora, já encontraram

R$ 3 milhões repassados à empresa-fantasma Pantoja, destinados a saques na boca do caixa para pagamento de propinas.

Diária de $ 60 mil

A investigação da Polícia Federal na Assembleia Legislativa do Amapá descobriu, entre outros absurdos, o pagamento de diárias de viagem de R$ 60 mil pagas a deputados. Ou seja, num só dia, o equivalente ao que um trabalhador que ganha salário mínimo leva oito anos para receber. Um pé lá, outro cá

O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), está convencido de que precisa mesmo concorrer à Prefeitura de Manaus, mas pretende acumular o cargo com a campanha num primeiro momento, já que as eleições esvaziam o Congresso. Para cumprir a lei eleitoral, Braga já suspendeu o programa semanal de rádio que apresentava no Estado.

O retorno

O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, e o ex-senador Tasso Jereissati lançam terça-feira próxima, em Manaus, a candidatura do ex-senador Arthur Virgílio à prefeitura da capital. Virgílio cumpriu um exílio político em Lisboa desde a derrota para a reeleição ao Senado em 2010, pela qual o ex-presidente Lula se empenhou a fundo. O acerto foi num jantar em Brasília na semana passada.

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