Biblioteca digital do Senado: só Sarney por duas décadas

Material jornalístico dos anos 1970 até meados dos anos 1990 traz apenas reportagens que fazem referência ao político do Maranhão

Daniel Bramatti e João Domingos, O Estado de S.Paulo

16 Março 2014 | 02h03

BRASÍLIA - A História é quase monotemática no acervo digital de jornais e revistas da Biblioteca do Senado. Quem pesquisar pela internet textos publicados em duas dezenas de órgãos de imprensa entre os anos 1970 e meados dos 1990 encontrará apenas e tão somente reportagens sobre um único político: José Sarney.

É como se, na avaliação do Senado, os fatos relativos ao maranhense fossem os únicos merecedores de atenção ao longo de mais de duas décadas. Os registros eletrônicos mostram que mais de 10 mil reportagens foram indexadas com o assunto "Sarney, José", e nada mais. Diversas imagens escaneadas dos recortes de jornais mostram o nome de Sarney como único termo sublinhado nos títulos das reportagens. O foco de quem organizou o arquivo foi a pessoa, não o contexto das notícias.

Quem navega pelos 10.677 textos encontra desde considerações de Sarney sobre política, diplomacia e economia até registros sobre a saúde da mãe dele, Dona Kiola. Também estão lá diversas referências a escândalos e denúncias no decorrer de sua trajetória política.

No pacote "Sarney, José" só não se encontram menções à Assembleia Constituinte de 1988. O motivo é a existência de outra coleção digital que concentra reportagens sobre a Carta Magna. Também nela, Sarney é a estrela: seu nome é citado em mais 19.847 textos - 58% dos quase 34 mil registros.

Informações de bastidores da biblioteca e da direção do Senado revelaram que foi Sarney, em sua primeira gestão como presidente da Casa, entre 2003 e 2005, quem deu a largada para a digitalização do noticiário referente à Constituinte e também de um projeto intitulado "Presidentes do Senado".

Encerrada a primeira tarefa, começou-se a produção do catálogo sobre os "Presidentes do Senado". Embora Sarney tenha sido o 62.º senador a ocupar o posto, o trabalho começou - e acabou - por ele. Renan Calheiros (PMDB-AL), seu sucessor, encerrou contratos com funcionários terceirizados e pôs fim ao projeto.

Trajetória. Lidas em retrospecto, muitas das reportagens revelam desdobramentos irônicos da História. Em 1977, Sarney, então senador pela Arena, partido de sustentação da ditadura militar, travou um acirrado debate com o oposicionista Paulo Brossard, do MDB gaúcho.

O maranhense usou seus dotes de oratória para defender a tese de que, na época, não existia ditadura no Brasil. "A revolução não tem tido outra preocupação senão a de afirmar, todo dia e toda hora, seus compromissos com o regime democrático", dizia Sarney.

Brossard, amparado pela realidade, denunciava o autoritarismo do governo do então presidente Ernesto Geisel, a quem chamava de "monarca descoroado". Ainda se passariam oito anos até o fim do regime dos generais - justamente com a posse do neopeemedebista Sarney na Presidência. Em 1986, Brossard foi nomeado ministro da Justiça de seu antigo rival.

Não foi a única reconciliação marcante na carreira de Sarney. Em 1977, ele apresentou ao Supremo Tribunal Federal uma queixa-crime contra o então deputado Epitácio Cafeteira (MDB-MA). O motivo foi o fato de Cafeteira ter acusado o então senador arenista de "aquisição ilegal de terras públicas".

Os dois eram inimigos e disputavam o poder no Maranhão desde os anos 60. Ficaram sem se falar até 1984, época em que Cafeteira passou a defender a candidatura de Sarney a vice-presidente na chapa de Tancredo Neves. O gesto selou uma nova aliança, e Cafeteira, apoiado por Sarney e embalado pelo Plano Cruzado, foi eleito governador do Maranhão em 1986 com mais de 80% dos votos.

No começo dos anos 80, nada indicava que Sarney estivesse prestes a se bandear para o lado da oposição. Pelo contrário. Como presidente nacional do PDS, sucessor da Arena no papel de partido de sustentação aos generais, coube a ele a missão de evitar a derrota do regime em 1982, mas primeiras eleições diretas para governos estaduais desde os anos 60. Fracassou. Os principais vitoriosos foram Franco Montoro (São Paulo), Leonel Brizola (Rio de Janeiro) e Tancredo Neves (Minas Gerais), todos da oposição.

Virada. Em abril de 1982, Sarney chegou a admitir a possibilidade de concorrer ao governo maranhense naquele ano. Se tivesse seguido esse rumo, ficaria afastado do plano político nacional e dificilmente se viabilizaria como candidato a vice de Tancredo em 1985.

Em 1983, um ano antes de aderir ao PMDB, Sarney acusava os governadores do partido de promover "perseguição" a integrantes do PDS nos Estados.

No primeiro semestre de 1984, Sarney ajudou a derrubar a chamada Emenda Dante de Oliveira, que propunha a volta das eleições diretas para a Presidência. No final daquele ano, ao pular para o barco peemedebista, tentou reescrever sua história: "Nunca fui contras as eleições diretas", disse. "Não fui eu quem mudou, foi a política."

Escolhido como vice de Tancredo, ajudou a articular a derrota de Paulo Maluf (PDS) na eleição indireta de 1985. Ainda não sabia, mas, por um capricho da História, estava a um passo de se transformar no primeiro presidente civil após o golpe de 1964. / COLABOROU LILIAN VENTURINI

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