Beto quer ficar mais 4 anos à frente da cidade

Atual prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab enfrentará Marta Suplicy no segundo turno

Fausto Macedo, de O Estado de S. Paulo,

05 de outubro de 2008 | 23h12

Quinto de sete filhos, pai médico e mãe professora, neto de libanês, paulistano de Pinheiros, afeito ao futebol - sim, ele próprio zagueiro que chegava junto nos tempos de universidade -, Beto na família, Giba para amigos, engenheiro civil pela Poli e economista, leão no signo, 48 anos, solteiro, bom de garfo, mas inimigo do agrião, R$ 5,1 milhões de patrimônio. Eis Gilberto Kassab, que administra a metrópole de tantos desafios e tensões desde março de 2006 - quando José Serra (PSDB) renunciou para concorrer ao governo do Estado - e agora ambiciona permanecer no cargo de prefeito de São Paulo por mais quatro anos. Kassab é uma história política com mentor e tutor, Anis e Afif são eles, mas foge do clichê batido da sucessão de pai para filhos e netos das oligarquias. Anis Kassab, de 89 anos, tio do prefeito, foi seu orientador. Guilherme Afif Domingos, 65, secretário do Trabalho e das Relações de Emprego do Estado, licenciado para coordenar o plano de governo de Kassab, seu padrinho. As duas famílias, a de Anis e a de Afif, se relacionam bem, mantêm laços de parentesco. São de Vargem Grande do Sul, no interior do Estado. A avó paterna de Afif era irmã de José Zarif, tio de Pedro Salomão José Kassab, pai de Gilberto. Uma certa manhã, em 1984, Anis telefona para Afif. - Guilherme, tenho um sobrinho que gosta muito de política.- Manda ele falar comigo. Afif, na ocasião, presidia a Associação Comercial de São Paulo e empenhava-se na instalação do núcleo de jovens empresários, na renovação de um setor que caducava e na criação do estatuto da microempresa. Kassab, 24 para 25 anos, fazia pós graduação na USP, engenharia civil e economia. O rapaz apresentou-se: "Eu sou o Gilberto Kassab, sobrinho do Anis, filho do Pedro." Impressionaram Afif, naquele primeiro encontro, os aros muito grandes dos óculos do recém-chegado, que lhe conferiam aspecto "um tanto engraçado", e também "aquela língua meio presa, meio amarrada". Logo Afif identifica atributos em Kassab que o fazem confiar-lhe o papel de braço direito, artífice de suas aventuras pelos caminhos tortuosos do voto. Um ano depois, o movimento Afif funda uma sigla, o Partido Liberal, e Kassab a ele se filia. Em 1986, Afif é lançado candidato à Assembléia Nacional Constituinte. Kassab corresponde plenamente e dele torna-se dedicado cabo eleitoral, primeiramente, e depois um "articulador notável, muito capaz" - é a avaliação de Afif. Assédio Nos meses que antecedem a eleição, Kassab exerce assédio tenaz aos dirigentes da agremiação, a quem pede reiteradamente por Afif. Desde o princípio parceiro entusiasta e combativo, exalta qualidades de Afif. Suas armas são o poder de persuasão e a perseverança. Movimenta-se sem embaraços. Basta-lhe um telefone, muitas vezes. Reclama, exige empenho dos correligionários, faz projeções otimistas, não se deixa abater nem nos momentos claudicantes da jornada. Não descansa até alcançar o objetivo. Chama os aliados à responsabilidade, dobra um a um os indecisos, faz reuniões, muitas vão madrugada afora, não se curva aos céticos, redige manifestos, manda bilhetinhos, mobiliza lideranças de todo o interior, viaja muito, convoca a ala jovem do partido, intervém em querelas e discordâncias domésticas, reprime infidelidades, incendeia a campanha - apesar do dinheiro curto da agremiação ainda em formação. Assume a agenda do candidato, em uma caderneta pessoal anota datas de comícios e os deslocamentos. Conduz Afif a uma campanha vitoriosa - o empresário é eleito o terceiro constituinte mais votado do Brasil. "Eu era um candidato temático, o candidato da microempresa", relata Afif. "Ao fim do processo, o Kassab havia consolidado o novo partido, assumiu plenamente a organização. É um trator." Chegam as eleições presidenciais de 1989. É o grande salto de Afif, imagem da reforma, e Kassab outra vez é requisitado. O duelo é desigual. "Uma microempresa política, um partideco de nada, logística zero contra as grandes estruturas", lembra Afif. "Como o cineasta gosta, apenas uma câmera na mão e uma idéia na cabeça." É imperiosa uma coligação que assegure 10 minutos na TV para Afif. "Aí entrou o gênio político do Kassab", conta o empresário. - Pô, Kassab, não vai dar certo, resmunga Afif.- Vamos trabalhar, empolga-se Kassab.- Mas não vai adiantar.- Vai dar certo, vamos trabalhar.Kassab sai em busca de alianças. "Vamos atrás do PDC, vamos conquistar o PDC." Artífice Não é fácil, o cenário é inamistoso, o Partido Democrata Cristão disputado a ferro e fogo por forças políticas tradicionais, quase imbatíveis, quase todas fechadas com Fernando Collor.  Gilberto Kassab tem ciência das adversidades que o esperam, mas se põe a campo obstinadamente. Vai ao encontro do senador Mauro Borges e entrega ao velho líder político o grande trunfo que havia conquistado à custa de boa conversa: uma carta de Sobral Pinto, duas páginas da lavra do célebre jurista. "Esse ilustre político paulista", ele escreveu sobre Afif, em 23 de junho daquele ano, "por sua inteligência, suas idéias, sua formação moral, seus conhecimentos das necessidades administrativas, econômicas e disciplinares do País, é o governante que a Nação reclama." Sobral havia sido defensor de Borges, quando o regime de coação o jogou nos porões. Em seu texto o advogado de renome e prestígio conclama Borges, brizolista, a referendar Afif. Recomendação desse jaez o senador não pôde ignorar. Afif não triunfa, mas é merecedor de expressiva votação. "O Kassab foi o artífice da articulação." No ápice da campanha, Kassab mostra-se um tipo espirituoso. Prega peças nos companheiros, a quem sussurra ao pé do ouvido: "Olha, ouvi dizer que o Guilherme tá pensando em você para ministro. É bom preparar algum programa." Afif se diverte toda vez que um partidário irrompe no casarão da Avenida República do Líbano, sua cidadela, sobraçando calhamaço de relatórios e com idéias mirabolantes. "Ele é muito brincalhão", assinala Miguel Luiz Bucalem, 46 anos, professor universitário e engenheiro da Poli, colega de Kassab na USP. "O Kassab é bem-humorado, divertido e inteligente." Apegou-se de tal modo à política que, já em 1990, sai dos bastidores e ele próprio vai em busca de sua primeira eleição, a deputado estadual pelo PL. Teve bastante votos, insuficientes porém para levá-lo ao Palácio 9 de Julho. Em 1992, conquista uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo e, mais tarde, em 94, é eleito enfim deputado estadual, já pelo PFL. Entre um e outro pleito, Jorge Bornhausen, o velho cacique do PFL, procura Afif e confidencia que a sigla precisa de uma liderança em São Paulo. Admite que o PFL está sem comando por aqui. - Tô fora, rejeita Afif.- Mas preciso de alguém que opere o partido - insiste Bornhausen.- O nome é Gilberto Kassab. Calças curtas No Liceu Pasteur dos anos 60, Gilberto Kassab, de calças curtas, vive os melhores anos de sua infância. Destaca-se por sua aplicação. Os boletins são a prova de empenho do aluno que virou prefeito. Notas altas ele tira corriqueiramente. No terceiro ano, a média geral bate em 9,7. Em aritmética, naquele 1968, leva a nota máxima em março, abril, maio e setembro. Nos outros meses não vai tão bem: oscila entre 9,6 e 9,8... Os Kassab formam uma família singular. Pedro Salomão José Kassab, de 78 anos, homem de princípios e retidão reconhecida, é médico cirurgião formado pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de física. Há mais de meio século é diretor-geral do Liceu, o tradicional e exigente instituto de educação onde todos os seus filhos estudaram, do primário ao último ano do colegial. Yacy fez o normal no Caetano de Campos da Praça da República. Aos 71 anos, em 2006, ela faleceu, pondo fim a 56 anos de uma vida harmoniosa com Pedro, a quem namorou por dois anos, noivou por um, "sempre à maneira antiga", como ele assevera, e com quem ficou casada quase 53 anos. São sete os filhos do casal. Seis homens: Pedro, de 53 anos, Sérgio, 52, Renato, 49, Gilberto, 48, Marcos, 47, e Claudio, 43. Apenas uma mulher, Marcia, pedagoga, 51 anos. Seis filhos, os seis homens da prole, estudaram engenharia na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e também se formaram pela Faculdade de Economia e Administração da USP.  "Gilberto é organizado, meticuloso", relata Marcos. "A gaveta dele é de dar inveja, de ganhar medalha." Marcia, a irmã, conta que uma vez a professora de conhecimentos gerais perguntou à sala de admissão quem saberia dizer os nomes de todos os ministros de governo. Kassab aceitou o desafio. "Ele sabia nome por nome, a professora ficou encantada." Eram tantos irmãos, e havia os primos também, todos quase da mesma idade e quase do mesmo tamanho, que Yacy, a diligente sra. Kassab, a seu modo teve de dar conta da tarefa - ao volante de uma Kombi creme, todos os dias, ela atravessava a cidade, desde o Alto de Pinheiros, onde residiam, até aquela ruazinha da Vila Mariana, a Mairinque, onde fica o Liceu Pasteur, de tantas tradições e histórias porque ali se formaram alguns próceres da metrópole. Havia dias em que eram 12 os passageiros de Yacy e alguém a abordou à porta da escola: "Quanto a senhora cobra?" Yacy desfez a dúvida do cavalheiro, a quem explicou que não era uma perueira profissional. Kassab e seus irmãos foram criados em um ambiente de paz e afeto. "Tivemos uma vida muito feliz, todos muito amigos", ressalta Marcos. Moravam nos arredores da Praça Panamericana, casa arejada, de jardins formidáveis e quintal generoso, onde as crianças passavam tardes alegres entre violetas, avencas, samambaias, primaveras, chorões e os pés carregados de romã e de pitanga que eram a paixão de Yacy. "Tinha um zôo em casa", lembra Marcia. A saber: cães, gatos, coelhos, faisão, tartaruga, peru, periquitos, papagaio... Na cozinha, as seis bocas do fogão ardiam. "Era panelão de quartel", compara Pedro, o pai. "A grande lembrança que carrego comigo é a da convivência com minha mãe, meu pai e meus irmãos", diz o prefeito. Outro acontecimento que o marcou foi a festa da formatura da Poli, no Anhembi. "É muito significativo porque encerra uma etapa da vida da gente." Botinadas O prefeito aprecia o futebol, tem sangue são-paulino. Quando sobra um tempo vai ao Morumbi. Mais novo também ia a campo, na universidade, disputar umas partidas com a turma. Com seu metro e 85, levava jeito mesmo de beque. Não era um craque, mas dava conta do recado. "Nota 7", avalia Miguel Bucalem. "Ele sempre gostou de jogar na zaga. Não passava nada, ele chegava junto. Se precisasse dava umas botinadas", narra Marcos Kassab. Dividido em tantos afazeres, deixou os prazeres das peladas. Bom partido ele é - suas credenciais e dotes não são desprezíveis. Um apartamento confortável nas imediações do Shopping Iguatemi, declarado por R$ 743 mil, dois veículos importados (um Passat e um Toyota Corolla blindado), cotas de capital das empresas Yapê, contas em bancos e aplicações financeiras. De quebra: olhos claros e adora crianças. Caprichos do destino, nenhuma pretendente arrebatou o coração do alcaide quase cinqüentão a ponto de puxá-lo para o altar. A cidade pergunta por que não tem primeira-dama. "Naturalmente, não posso falar por ele, mas acho que o homem vai ficando mais velho e mais exigente", anota o pai. "Com medo de errar torna-se mais analista de qualidades e defeitos, não consegue se desvencilhar de uma análise mais racional." A bem da verdade, Gilberto não é o único irmão que não se casou - Claudio, de 43, o caçula, também é solteiro. Mora com o pai. Enquanto não troca alianças, vai curtindo "uma de tiozão", como diz o pai. Preza muito a companhia dos sobrinhos, que são 10, o mais novo de 5 anos, o mais velho, Pedro, é claro, de 24. A eles dispensa toda atenção e carinho desse mundo. Os domingos, exceto esses que antecedem o grande desafio de sua vida pública, ele tira para ficar com o pai, os irmãos e as crianças. A família se reúne no apartamento do pai, próximo ao Clube Pinheiros, que os Kassab freqüentaram desde muito cedo. O que houver à mesa é bem-vindo, menos o agrião, que Kassab menino já abominava.  Tinha 4 anos quando os pais o levaram para almoçar com amigos. Forraram de agrião o prato dele. Lépido, recolheu as folhas e os talos e enfiou tudo por dentro da camisa. Só se desfez da maçaroca quando regressou para casa. "Minha mãe riu muito", lembra. Afora a cisma com a hortaliça, é bom garfo assumido. "Ele é como o pai. Gosta principalmente de tudo", afirma Pedro Kassab. O prefeito é irreverente. Quando Oscar Maroni, o rei da noite, caiu nas malhas da lei, ano passado, ele não perdeu a deixa. Quem pagou foram secretários e auxiliares. A cada um que entrava em sua sala, um Kassab austero alertava, a voz grave: "O seu nome tá na agenda do Maroni." Ele não fuma. É católico, mas santo de devoção não tem. Seu primeiro ato da manhã é a leitura dos jornais. "À noite, antes de me deitar, releio todos os e-mails." Jeito  Já na faculdade exibia "um certo jeito" para a política. Miguel Bucalem, o colega da Poli, conta: "Agora, olhando para trás, puxando bem a memória, a gente vê que era nato dele. Ele sempre foi muito bom articulador." Depois da vereança e de se eleger deputado estadual, ganhou para federal, de 1999 a 2003 e, após assegurar o segundo mandato na Câmara, saiu em 2005 para assumir o cargo de vice de Serra. Antes, em 1997, uniu-se ao prefeito Celso Pitta, de quem foi secretário de Planejamento, aliança que lhe causa desconforto e cobranças até hoje - além de ter ido parar na lista dos fichas-sujas da AMB porque alvo de ação por improbidade, que, em tempo, julgada improcedente pela 10ª Vara da Fazenda. "É evidente que no processo político a gente erra", reconhece Kassab. "Eu não participaria de novo do governo Pitta." "Ele se dá bem com todo mundo, não tem cara do PT que não goste dele", garante Afif. Nem sempre. Que o diga aquele desafortunado que, em 2007, foi vítima de destempero de Kassab, já prefeito, a quem provocara com impertinências sobre o programa Cidade Limpa, sua glória, na inauguração de um ambulatório. Kaiser Paiva, microempresário, foi expulso aos berros de "vagabundo", grosseria que marcou o início da era Kassab. "Ele não é intolerante, ao contrário, é tranqüilo e motivador", depõe Bucalem.

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