Base governista barra depoimento do dono da Delta e oposição vê 'fim da CPI'

Caso Cachoeira. Em reunião tumultuada na qual tucanos ameaçaram até deixar a sala, convocações de Fernando Cavendish e de ex-diretor do Dnit, órgão do governo com o maior número de contratos com empreiteira, acabam adiadas por parlamentares

EUGÊNIA LOPES , RICARDO BRITO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2012 | 03h06

Os partidos aliados aplicaram um "freio" na CPI do Cachoeira e impediram ontem a convocação do empresário Fernando Cavendish, proprietário da Delta Construções. Declarada inidônea há dois dias pela Controladoria-Geral da União, a Delta é a principal empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal. A base aliada também rejeitou a convocação do ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antônio Pagot.

Foram 16 votos contra e 13 a favor da ida de Cavendish - a negativa de ontem não impede que o empresário seja convocado em outro momento da investigação.

O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) disse haver uma "tropa do cheque" na CPI (leia abaixo).

Amigo do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), Cavendish foi blindado com votos da maioria da base governista. O PT votou em bloco contra a convocação. O PMDB se dividiu.

Independentes. O senador Ricardo Ferraço (ES), que é considerado "independente", votou a favor da convocação imediata. O mesmo fez a deputada Íris Araújo (GO), que era autoria de um dos 11 requerimentos que pediam a convocação de Cavendish. Já o deputado Ronaldo Fonseca (PR-DF), que também tinha um requerimento com o mesmo teor, votou com os governistas. Apesar de ser suplente na CPI, o deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ) fez questão de discursar contra a convocação do dono da empreiteira.

O adiamento da convocação do empresário foi proposto pelo relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG). Ele disse que a comissão precisa, antes, analisar toda a documentação para definir se é o caso de chamar Cavendish. Cunha usou o mesmo argumento para propor o adiamento da convocação de Pagot, que poderia falar sobre os contratos do Dnit com a Delta. Foram 17 votos pelo adiamento e 13 contra.

"Se Pagot quer prestar informação relevante, terá oportunidade segundo a nossa conveniência." O petista observou que, se Pagot tiver denúncias a fazer, deve procurar a Polícia Federal.

A oposição e parlamentares de partidos da base considerados "independentes" consideraram o adiamento das convocações como "o fim da CPI". Eles ameaçaram deixar o plenário. "Não ouvir neste momento Pagot e Cavendish é transformar a CPI em café com leite", afirmou o senador Pedro Taques (PDT-MT). "Foi um dia deplorável para a CPI", disse o líder do PSDB na Câmara, Bruno Araújo (PE).

Se os depoimentos que poderiam complicar o governo federal foram adiados, os que podem constranger Marconi Perillo (PSDB) passaram. Ao todo, a CPI aprovou a convocação de dez pessoas, a maioria delas ligada ao governador de Goiás. Entre elas, Andressa Mendonça, mulher do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, Luiz Carlos Bordoni, jornalista, e Lúcio Fiúza Gouthier, assessor de Perillo (ver quadro abaixo). As datas dos depoimentos ainda serão marcadas.

Provocações. Antes de decidir pelo adiamento dos depoimentos de Cavendish e Pagot, a CPI foi palco de mais uma disputa política entre PT e PSDB.

Os tucanos apresentaram requerimento de convocação da presidente Dilma Rousseff, em represália à proposta do PT de convocar José Serra, candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo. O presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), considerou o requerimento do PSDB inconstitucional. O PT deverá retirar o pedido de convocação de Serra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.