Base e oposição já planejam como usar fala do empresário

Bastidores: Ricardo Brito

O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2012 | 03h06

Após uma série de recuos e suspeitas de acordão, integrantes da base aliada e da oposição, na CPI do Cachoeira, comemoraram ontem o fato de, finalmente, ter sido convocado o principal acionista da Delta Construções, o empresário Fernando Cavendish. A decisão foi entendida como trunfo para os dois lados.

Os aliados planejam aproveitar o encontro com o empresário para aprofundar as investigações contra o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo (PSDB), suspeito de ter vendido sua casa para o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, numa operação nebulosa e aparentemente irregular.

De seu lado, os oposicionistas tentarão contra-atacar cobrando de Cavendish explicações para o suposto desvio de recursos e corrupção da empreiteira - que, embora tenha sido declarada inidônea pelo governo Dilma Rousseff e esteja em recuperação judicial, ainda ostenta o título de maior recebedora de recursos dirigidos ao Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.

As apostas dos dois lados, entretanto, esbarram na vontade de Cavendish de colaborar. Informado de sua convocação, seu advogado, Técio Lins e Silva, já adiantou ontem, no Rio, que ele "não tem nada a contribuir" e pode recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) para ficar calado. Nem homem-bomba, nem homem-estalinho, resumiu o defensor sobre a condição de seu cliente.

Até o momento, o direito de nada dizer - garantia constitucional dos investigados - foi a estratégia usada por 15 dos 23 depoentes. Nesse cenário, a CPI tomou ontem, horas antes de convocar Cavendish, uma decisão que só beneficia os acusados: manteve o rito de dispensar os depoentes tão logo eles digam que não querem responder às perguntas dos parlamentares.

"Só pode ser alegado o direito ao silêncio para não se incriminar conhecendo a pergunta. Como há direito ao silêncio se não se sabe a pergunta?", questionou o senador Pedro Taques (PDT-MT), perdedor do debate.

Prevaleceu a tese do relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), segundo a qual a característica da comissão é mais se aprofundar nos documentos e menos nos depoimentos.

Se é assim, convocar Cavendish para não perguntar e logo em seguida dispensá-lo é uma iniciativa que só serve para jogar para a plateia. Foi o que ocorreu com Carlinhos Cachoeira e com outros integrantes do seu grupo.

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