Base e oposição fazem acordo e CPI do Cachoeira termina sem indiciados

Depois de consumir R$ 120 mil e oito meses de trabalho de parlamentares e assessores, a CPI do Cachoeira aprovou ontem, entre protestos de que tudo virou "presepada" e "piada", um relatório de uma página e meia sem apontar ninguém como suspeito de integrar ou participar do grupo do contraventor já condenado a quase 40 anos de prisão por comandar um esquema de jogos ilegais apoiado por agentes públicos.

DÉBORA BERGAMASCO , RICARDO BRITTO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2012 | 02h07

A convergência de interesses da base governista e da oposição blindou as investigações sobre o contraventor Carlinhos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, o dono da empreiteira Delta, Fernando Cavendish, o senador cassado Demóstenes Torres, o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e o prefeito de Palmas, Raul Filho (PT), entre outros,

Os parlamentares que integram a comissão rejeitaram o texto final do relator, o deputado Odair Cunha (PT-MG), de 5 mil páginas, que colocava no foco da investigação o governador tucano e poupava nomes importantes da base aliada e do PT, como os do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz.

O relator já havia feito "ajustes" em seu texto a fim de que fosse aprovado. Inicialmente, queria indiciar mais de 40 pessoas, entre elas jornalistas que apareciam numa série de interceptações conversando com Cachoeira. Também queria que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, fosse investigado por não ter aberto procedimento contra Demóstenes mesmo após a Operação Vegas da Polícia Federal ter apontado indícios de sua ligação com o contraventor.

Cunha acabou recuando nesses dois pontos por causa de resistência na própria base aliada, mas não conseguiu garantir apoio a seu texto. Num "acordão da madrugada", governistas e opositores resolveram aprovar a página e meia do deputado Luiz Pitiman (PMDB-DF). O documento de Pitiman, se não contempla todos os interesses petistas ou tucanos, tampouco compromete a vida de qualquer partido da base ou da oposição. Sem citar ninguém, pede apenas que todos os sigilos fiscais e telefônicos obtidos pela CPI e os cinco votos em separados sejam enviados para a Polícia Federal e para o Ministério Público Federal, para que essas instituições continuem as investigações.

A proposta original de Cunha foi rejeitada por 18 votos a 16. Na lista de indiciados do relator, constavam Perillo, Raul Filho, Demóstenes e o deputado federal Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO). Ao todo, havia pedido que 29 pessoas fossem indiciadas - ou seja, haveria indícios suficientes para que essas pessoas já fossem consideradas suspeitas de ligação ilícita com Cachoeira.

Cunha afirmou que o resultado da CPI "foi uma pizza geral". O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) ironizou o acordo: "Só o que está faltando são os lencinhos e as champanhes francesas que o senhor Fernando Cavendish vai pagar, com certeza, para a bancada que enterrou a CPMI do Cachoeira", disse ele, referindo-se a fotos divulgadas após uma viagem de integrantes do governo Cabral a Paris na qual confraternizavam com diretores da Delta.

Para o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), que votou contra o relatório aprovado, o Congresso Nacional protagonizou "uma das piores cenas de sua história com substituição de parlamentar na madrugada, mudanças de última hora, encaminhamento, conchavos, mudança de voto de imediato".

Já o senador Alvaro Dias (PSDB-PR), que votou a favor do parecer de Pitiman, negou que tenha blindado Marconi Perilo e disse que "votar o relatório (proposto por Odair Cunha) seria chover no molhado, em relação ao governo do Marconi, pois já houve autorização do STJ para a investigação do governador". Disse ainda que todas as investigações que seguirão no âmbito dos órgãos permanentes de investigação estarão a salvo da "política partidária" adotada na CPI. E concluiu afirmando que a Comissão quis "agredir apenas uns e proteger os outros".

'Abrangente'. Para justificar seu parecer, o autor do relatório vencedor disse que seu texto é muito mais abrangente do que o rejeitado de Odair Cunha, uma vez que todo o material produzido será remetido para as investigações da polícia e do MP.

"Em plena festa natalina, este relatório final é uma presepada", criticou o líder do PPS, deputado Rubens Bueno (PR), após a aprovação do texto.

"Não me compete aqui ficar tendo sentimentos, o que eu posso dizer que é lamentável, que, apesar de todo o esforço feito pelos membros da CPI, por todos nós aqui, diante de provas incontestes da CPMI, não existe um juízo de valor sobre nada. Ela se nega a fazer aquilo que é a sua missão essencial. Levantar provas, identificar indícios e apresentar conclusões. As conclusões aqui são nada, um vazio, Uma pizza geral, lamentável", criticou Odair Cunha, ao final da sessão de ontem.

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