Base aliada adia votação do Conselho de Ética

Tentativa do PSD de tomar o comando da área do PDT irrita governistas, que adiam para terça a eleição de seu presidente

VANNILDO MENDES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2013 | 02h08

Ante o risco de uma derrota no voto, os principais partidos da base aliada do governo - PT e PMDB - manobraram e conseguiram adiar ontem a votação para a presidência do Conselho de Ética da Câmara. Como o presidente do conselho, José Carlos Araújo (PSD-BA), se recusou a adiar a sessão, coube ao presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), dar um ponto final ao abrir a ordem do dia do plenário e determinar, em consequência, a suspensão dos trabalhos em todas as comissões. A votação ficou para a próxima terça-feira.

Praticamente eleito, com apoio de Alves e da base aliada, o deputado Marcos Rogério (PDT-RO) viu a vitória escapar-lhe das mãos nas últimas semanas com o crescimento da candidatura avulsa do deputado Ricardo Izar Júnior (PSD-SP), que abriu uma dissidência no seu partido e se lançou apoiado pela oposição.

A situação do pedetista se complicou ainda mais com a reportagem publicada ontem pelo Estado, na qual ele é acusado de ter repassado verba para uma empresa de Rondônia ligada a dois funcionários do seu gabinete. No plenário do conselho, a divisão ficou clara e o clima esquentou.

Indignado com a quebra do acordo de líderes em torno do candidato governista, o líder do PMDB, Eduardo Cunha (SP), ameaçou retaliações ao PSD, começando por negar a criação da vaga na Corregedoria da Câmara de todos os cargos na Mesa pleiteados pelo partido de Gilberto Kassab. "Haverá consequência em cascata, com quebras de acordo em série, começando pelos pleitos do PSD e isso pode prejudicar todo o ano legislativo", avisou Cunha.

Os partidários de Izar reagiram. "Isso não é ético, é pressão indevida", protestou o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), que se juntou aos rebelados. Em nome dos partidos de oposição, o deputado Cesar Colnago (PSDB-ES) negou a existência de acordo de lideranças e desafiou o governo a ir a voto. "Não há acordo algum, não fomos consultados, e não aceitamos chantagem", disse ele. "Não concordamos com esse jogo de manipulação e essa visão autoritária, vamos a voto sem conchavo", desafiou o deputado Sérgio Brito (PSD-BA).

Antes do início da sessão, Rogério teve de dar explicações ao líder e a outros dirigentes do partido. Ele negou que tenha havido irregularidade na contratação da produtora de Márcio Bortolotti, irmão de Marcos e Rosilene Bortolotti, lotados no gabinete do deputado em Rondônia. "A empresa prestou serviços, dentro da legalidade e com transparência. Trata-se de fato público, inserido no Portal da Transparência e contra o qual não há qualquer contestação legal ou ética", alegou o pedetista, negando que o fato tenha influenciado sua performance na disputa.

O líder do PDT, André Figueiredo (CE), informou que o partido se deu por satisfeito com as explicações de Rogério e mantém sua candidatura.

"É um parlamentar que sempre se pautou pela retidão e conduta ilibada", afirmou o pedetista. "Ele está tranquilo e disponível para qualquer explicação adicional. O que nos preocupa é a ruptura da tradição de cumprimento de acordos políticos nessa Casa, por conta da sede desenfreada do PSD por cargos. Isso já ocorreu no passado e o resultado foi a eleição avulsa do (ex) deputado Severino Cavalcante, que deu no que deu", recordou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.