Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Barbosa queria ser presidente, não candidato

No contexto que se configura para as eleições de 2018, o ex-Ministro do STF era o mais forte 'outsider'

Danilo Cersosimo, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2018 | 16h23

A impressão deixada pelo processo de decisão do ex-Ministro do STF, Joaquim Barbosa, sobre sua candidatura à presidência é que ele queria ser presidente, não candidato. O custo pessoal de uma campanha pesou.

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No contexto que se configura para 2018, Barbosa era o mais forte “outsider”, o nome percebido pela opinião pública como verdadeiramente vindo de fora da política (até porque os demais que assim se autoproclamam são quase que completamente desconhecidos).

Os resultados das pesquisas de opinião vinham mostrando considerável potencial de crescimento para sua candidatura e sua imagem se tornava cada vez mais consistente entre aqueles que o conheciam. Era muito cedo para cravar Barbosa como o próximo Presidente do Brasil, pois há variáveis na campanha que podem mudar as preferências do eleitorado ou frear o avanço de um nome com potencial, mas certamente ele congregaria um contingente relevante de votos e entusiastas.

A força de Barbosa estava, principalmente, na percepção de passado limpo e trajetória pessoal vencedora, partindo de uma origem humilde até chegar a posições de destaque. A agenda anticorrupção tem ganhado importância nos últimos anos e certamente pautará as eleições nos próximos meses - ele responderia a parte desta demanda, especialmente junto a grupos menos conservadores da sociedade (a outra porção deste território vem sendo preenchida por Jair Bolsonaro junto aos seus eleitores mais fiéis).

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Uma eventual candidatura Barbosa não seria “barbada” porque precisaria construir uma interlocução com os mais pobres - ainda não há entre os atuais candidatos aquele que dialogue com essa população, papel que, historicamente, sempre coube a Lula (talvez mais do que ao próprio PT dos últimos anos). Entretanto, havia indícios de que o ex-Ministro do STF poderia fazê-lo com mais sucesso do que os demais concorrentes. Além disso, há uma parcela da classe média que rechaça posicionamentos à esquerda e que via Barbosa neste espectro.

Ainda é cedo para dizer quem ocupará seu espaço nas eleições. O que temos hoje é um cenário cada vez mais convencional, ao contrário do que se desenhava um ano atrás.

Geraldo Alckmin tem alta rejeição, mas muito tempo de TV e forte estrutura partidária para tentar minimizar esse fator. Marina Silva é bastante conhecida, mas sem tempo de TV e com pouca musculatura partidária. Ciro Gomes não aparenta até aqui ser um nome com peso para chegar ao 2º turno. Jair Bolsonaro parece ter atingido seu teto, visto que seus indicadores de aprovação no Barômetro Político Estadão-Ipsos se mantêm estáveis nos últimos meses, fenômeno acompanhado pelo seu desempenho nas pesquisas eleitorais. Ainda assim, num cenário pulverizado, parece ser o nome com mais chances de ter um lugar garantido no 2º turno.

E Lula? Inelegível e encarcerado, o ex-presidente conta com uma constante aprovação acima dos 40% e seu desempenho nas pesquisas de intenção de voto segue inabalável até aqui. Dentre os que o aprovam no Barômetro Político Estadão-Ipsos, 23% o fazem totalmente, indicando que este parece ser seu nada desprezível capital eleitoral. Tal percentual é praticamente idêntico a todas as pesquisas de opinião que questionaram sobre votar em um candidato apoiado pelo ex-presidente.

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Ainda não se sabe quem será esse nome. É preciso avaliar também qual será a força de Lula nos próximos meses, sem poder se comunicar e fazer o corpo a corpo que sempre fez tão bem, para manter e eventualmente transferir essa parcela do eleitorado. As especulações são inúmeras.

Se, por um lado, a saída de Joaquim Barbosa pode fortalecer o discurso de ordem proferido por Jair Bolsonaro, por outro, sua ausência deverá manter o eleitorado mais carente ligado a Lula por mais tempo (o aumento do desemprego e o empobrecimento da população certamente continuarão a pesar nesse sentido).

A preferência obtida até aqui por Joaquim Barbosa não se originava necessariamente por oposição a algum adversário. Desta forma, aqueles agora órfãos de sua candidatura deverão se pulverizar entre os demais nomes da disputa, por caminhos e motivos diferentes.

*Danilo Cersosimo é sociólogo pela Universidade de São Paulo e mestre em Estudos Urbanos pela University College London (UCL). Atua há mais de 20 anos em pesquisa social e opinião pública.

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