Balanço geral

Incorreu em grave equívoco quem pensou que o processo do mensalão acabaria "dando em nada".

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h07

Por variados motivos: hábito do descrédito, medida preventiva contra decepções, confiança na morosidade da Justiça ou certeza de que a composição da Corte majoritariamente formada por indicação de companheiros de jornada dos acusados seria garantia suprema de submissão.

Concluído o julgamento inédito na duração, quantidade de réus, número de crimes, gravidade de delitos e complexidade do esquema montado para financiar um projeto de hegemonia política, resta aguardar a conclusão os trâmites e daí a execução das punições.

A negativa do ministro Joaquim Barbosa ao pedido da Procuradoria-Geral da República de prisão imediata dos condenados talvez tenha até decepcionado os mais exaltados dos dois lados.

Não ofereceu o "sangue" esperado pelos que se regozijam de maneira exacerbada nem forneceu argumentos aos que se revoltam de forma desatinada com o resultado do julgamento. Estes estariam prontos para apontar a "prova" de que Barbosa relatou o processo jogando para a plateia.

Tudo transcorreu dentro da mais perfeita ordem institucional e com uma vantagem de natureza moral: o STF deu um alento aos que nos últimos tempos assistiram perplexos à escalada de impunidade de cinismo, muitas vezes duvidando do que viam e ouviam. Não raro até pensando se talvez não tivessem razão os que atribuíam a enxurrada de ilicitudes a uma injusta perseguição.

Diante de toda narrativa, ficou patente que não se tratou de mera compra de votos no Parlamento para aprovação de projetos. O mensalão propriamente dito acabou emprestando nome ao episódio, mas não foi o mais relevante naquilo que o ministro Marco Aurélio Mello chamou de "esse grande todo" quando do recebimento da denúncia, em 2007.

Por "todo" entenda-se o método do PT de arrecadar dinheiro e cooptar sustentação partidária para financiar o projeto de se tornar inamovível do poder por meio do voto.

Para tanto, mandou os escrúpulos às favas e aliou-se aos piores tipos dentro e fora da política. Imaginou que poderia manipulá-los mediante o atendimento de seus interesses na máquina pública e ainda sair-se ileso pelo fato de ser o sócio ideológico do esquema.

O partido foi denunciado pelos comparsas e, assim, os ideológicos acabaram dividindo com os fisiológicos o mesmo doloroso destino.

Fora da curva. Justiça seja feita, o deputado Marco Maia nunca disse que esconderia parlamentares da Polícia Federal na Câmara.

A versão prosperou por causa da declaração ambígua dele na entrevista coletiva de quinta-feira.

Maia tanto fez para tirar o corpo fora das perguntas sobre o tema, que terminou dando margem àquela interpretação. Indagado se abriria as portas da Câmara para eles, saiu pela tangente: "As portas da Casa estão abertas a todos".

Se a alma petista não tivesse falado mais alto, poderia ter dito simplesmente que o Parlamento não é esconderijo.

Calendas. Depois que a emenda constitucional extinguindo o voto secreto para cassação de mandatos foi aprovada pelo Senado, a orientação para a maioria governista na Câmara era aprová-la ainda neste ano.

Em novembro, a proposta recebeu parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça e já poderia nessa altura ter passado pela comissão especial e ido a plenário.

Diante da possibilidade de a Câmara dar a última palavra sobre a perda de mandato dos condenados, porém, tomou um chá de bela adormecida e descansa em berço esplêndido.

Vou... ...E volto dia 21 de janeiro.

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