Baixa ansiedade

Ao contrário do que o ritmo de marcha lenta poderia sugerir, a situação do pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, não leva os nervos do PT à flor da pele.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2012 | 03h08

O partido não jogou a toalha nem abandonou a perspectiva de recuperar terreno com a entrada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em cena prevista para logo após a oficialização da candidatura. Continua apostando na virada.

Mas, já não se nota entre petistas aquele clima de sangria desatada do início do ano, antes de José Serra decidir ir à luta pelo PSDB, quando o partido jogaria ali, sob o comando de Lula, uma partida decisiva na sua consolidação como força política hegemônica no País.

Agora o que se ouve é o seguinte: se der para ganhar, muito bem. Se não der, amém. A baixa ansiedade dos petistas deve-se à constatação de que para eles seria ótimo ganhar, mas a derrota não significa grande coisa além de uma mudança temporária de planos. Ou seja, têm espaço para fazer uma graça.

Já para o PSDB a coisa é diferente: a vitória é fundamental e a derrota um verdadeiro desastre. Tanto que avaliou e resolveu não correr o risco de apostar em experimentos.

O PT anda tão "relax" nesse assunto que fala com naturalidade sobre a hipótese de um segundo turno entre Serra e Gabriel Chalita, do PMDB.

Claro, isso é dito no paralelo. No oficial, vale a interpretação de que nos últimos 25 anos o PT nunca esteve fora da final que, portanto, seria mesmo disputada entre petistas e tucanos.

Como para o PT essencial é impor um vexame ao adversário tradicional, se Chalita chegar na frente de Haddad o partido prepara-se para aderir sem contestação ao PMDB, contando que o desgaste do prefeito Gilberto Kassab (PSD) e a rejeição a Serra trabalhem em favor do governismo federal.

Sem volta. Integrante da CPI do Cachoeira, o petista Cândido Vaccarezza acha cada vez mais remota a possibilidade de a comissão servir de arena a jogos políticos. Pela simples razão de que as informações já existentes obrigam o Congresso a se curvar à "primazia dos fatos".

Na opinião dele, quem tiver juízo vai encarar a CPI como "uma excelente oportunidade para desvendar pelo menos uma parte das atividades de uma quadrilha que fazia espionagem empresarial e política, explorava o jogo clandestino, lavava dinheiro e corrompia agentes públicos".

Alguma chance de acordo como ocorrido em outras ocasiões?

"Com tudo que a Polícia Federal já apurou, o único acordo possível é em torno do aprofundamento das investigações."

O fator preponderante para o êxito será a vigilância da opinião pública. "Quem tentar abafar qualquer coisa vai se desmoralizar."

Predisposições. A avaliação do ex-presidente Lula feita recentemente a um interlocutor do PT de que o partido é o principal alvo das outras legendas na CPI combina com o resultado de uma pesquisa da empresa de comunicação FSB, feita entre os dias 24 e 25 de abril.

Foram consultados 223 dos 513 deputados federais, integrantes de 19 dos 20 partidos com representação na Câmara.

A maioria (56%) acha que ninguém ganha politicamente com a CPI, mas 23% consideram que o PT tem mais a perder, seguido do DEM com 19% das indicações. Os tucanos ficam na terceira colocação (14%) entre os presumidos "perdedores".

A consulta foi feita antes de o PMDB entrar "na roda" via estripulias parisienses do governador Sérgio Cabral Filho com o empresário Fernando Cavendish (Delta) e talvez por isso o partido não apareça de maneira significativa no ranking de perdas e ganhos.

O número mais robusto é aquele que aponta 65% dos deputados compartilhando a impressão de que a CPI vai "resultar em novas revelações sobre o envolvimento de políticos e em perdas de mandatos".

A pesquisa não pode ser vista como uma antecipação dos rumos da CPI, mas revela algo sobre o estado de espírito dos partidos na Câmara.

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