Aura de Campos envolve Pernambuco

Aura de Campos envolve Pernambuco

Comoção com tragédia fez de ex-governador um forte cabo eleitoral de Marina no Estado no 1º turno; influência agora é colocada à prova

Clarissa Thomé - Enviada especial/ Recife, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 17h16

O desaparecimento precoce, vítima de um acidente aéreo aos 49 anos e às vésperas do início da propaganda eleitoral, em agosto, fez do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos o cabo eleitoral mais poderoso do 1.º turno. Seu grupo político manteve a hegemonia no Estado e impingiu derrotas marcantes ao PT. A dúvida é se essa força política influenciará também a votação que vai definir hoje o próximo presidente da República.

Em seu reduto, o neto de Miguel Arraes elegeu o sucessor com a maior votação proporcional do País, Paulo Câmara, um economista pouco conhecido que será governador após passar pelo secretariado de Campos. Também foi eleito senador o ex-ministro Fernando Bezerra, desbancando o deputado e ex-prefeito do Recife João Paulo (PT).

A parceira de chapa do ex-governador, Marina Silva, assumiu a candidatura presidencial do PSB e foi a mais votada pelos pernambucanos, único eleitorado do Nordeste a não dar preferência para Dilma Rousseff. E, para completar, a terra em que nasceu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não elegeu sequer um deputado federal petista.

Para o 2.º turno, tanto o PSB quanto a viúva e os filhos de Campos anunciaram apoio a Aécio Neves (PSDB). O tucano obteve 6% dos votos válidos no dia 5 - seu pior desempenho no País - e conta com a família do ex-governador para atrair a maioria dos 48% de eleitores que escolheram Marina - Dilma obteve 44% dos votos válidos.

O cientista político Hely Ferreira, do Núcleo de Estudos Eleitorais e Partidários da Universidade Federal de Pernambuco, não acredita que a transferência de votos para Aécio se dará de maneira automática. “No 1.º turno, teve efeito para Marina porque era da chapa dele (Campos). Historicamente, o processo natural do PSB era estar ao lado do PT no 2.º turno.”

Após a morte do ex-governador, o eduardismo, como ficou conhecido o movimento político dele, ganhou mais força. Campos foi onipresente na campanha, o que criou situações inusitadas. Até o adversário de Câmara, o senador Armando Monteiro (PTB), apoiado pelo PT, exibiu vídeo do ex-governador na propaganda eleitoral com elogios de Campos feitos em 2010, quando eram aliados. 

Família. A vitória de Câmara no 1.º turno, com 68% dos votos válidos, teve participação ativa da família Campos. A viúva, Renata, e os filhos do casal se engajaram na campanha, em especial o primogênito, João, apontado como herdeiro político do pai. O apoio dado a Marina no 1.º turno presidencial foi transferido para Aécio.

No Facebook, João chegou a conclamar, em vídeo, os jovens que participaram das manifestações de junho de 2013 a ingressar na campanha tucana. “Se engajem e participem da campanha do futuro presidente Aécio Neves nesta reta final. Principalmente você que é jovem, que foi às ruas no ano passado. Agora chegou a hora de escolher o caminho da mudança. Eu sou brasileiro. Eu sou Aécio 4.5.’’

Para o senador Humberto Costa (PT), coordenador da campanha de Dilma no Estado, a comoção em torno da morte de Campos foi o “grande motor” da campanha no 1.º turno. O petista acredita que esse impacto não se repetirá na votação de hoje. “Essa grande vitória (do PSB) tem tudo a ver com a associação feita ao Eduardo Campos e à tragédia”, disse. “O voto para presidência guarda independência importante em relação às lideranças locais, estaduais.” 

A imagem de Campos tampouco vai descansar. Artistas plásticos responsáveis pela fabricação dos bonecos gigantes de Olinda finalizam um novo boneco com as feições do ex-governador - o atual o retrata mais jovem. A previsão é de que esteja pronto no carnaval.

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Governador campeão de votos quer relação de respeito

Eleito com 68% dos votos, Câmara faz campanha para Aécio e diz esperar tratamento igualitário caso Dilma vença

Entrevista com

Paulo Câmara (PSB), governador eleito de Pernambuco

Clarissa Thomé - Enviada Especial/ Recife, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 16h48

O governador eleito de Pernambuco, Paulo Câmara, reconhece que a campanha de Aécio Neves (PSDB) não atingiu o interior do Estado, único do Nordeste onde a presidente Dilma Rousseff (PT) perdeu para o concorrente no 1.º turno. 

Câmara assumiu a coordenação local da campanha tucana no 2.º turno, depois de ter se tornado o governador mais bem votado do País: recebeu 68% dos votos, mesmo sem jamais ter se candidatado e de não ter experiência partidária - chegou à disputa pelas mãos de seu padrinho político, Eduardo Campos, morto em agosto. “Fizemos a campanha onde tinha condição de se levar o 45 de maneira mais rápida”, disse. Ele espera que Dilma, se reeleita, tenha para com ele “tratamento igualitário” em relação aos governadores que a apoiaram. 

Qual o peso de Pernambuco na eleição presidencial? 

Pernambuco mostrou que quer que o Brasil se transforme. Isso vem da candidatura de Eduardo Campos, se consolidou com Marina e com minha campanha. Pernambuco mostrou a união em torno de um projeto de transformação costurado por Eduardo. O governo atual entrega o Brasil pior do que encontrou. É óbvio que cria uma curiosidade quando você tem o governador eleito com mais votos no Brasil. Há um certo olhar para Pernambuco. Tanto que a presidente veio aqui no 2.º turno. Ela veio só no começo do 1.º turno e agora fez questão de passar um dia em Pernambuco. 

Aécio Neves só teve 5% dos votos em Pernambuco no 1º turno. O senhor crê na migração dos votos de Marina Silva, escolhida por 48% dos eleitores? 

Acreditamos na migração de grande parte desses votos. Realmente, não é fácil por causa do prazo que temos. A campanha no 2.º turno foi muito rápida, tivemos poucos fins de semana entre um turno e outro. Fizemos a campanha onde tinha condição de se levar o 45 de maneira mais rápida: na região metropolitana e nas grandes cidades do Estado. É óbvio, temos dificuldade com a televisão. Em virtude de muitas antenas parabólicas no interior do Estado, não chegava a vinculação do nosso apoio a Aécio. 

O eleitor de Pernambuco sabe que Aécio é o candidato da família Campos? 

Uma parte, sim. Renata (Campos, viúva de Eduardo) teve participação discreta, mas próxima do que foi no 1.º turno. Ela gravou para mim e para Marina também no fim do 1.º turno. Mas é uma participação com simbolismo muito forte (depois da entrevista, ela participou de caminhada pró-Aécio com Câmara).

Na recente visita a Pernambuco, a presidente prometeu uma boa relação com o senhor, caso seja reeleita. Como pensa que se dará essa relação? 

Isso é o que todos os governadores esperam do presidente, um tratamento igualitário. De minha parte, temos confiança na vitória de Aécio, mas caso a Dilma seja reconduzida, vamos ter relação de muito respeito. 

O PT foi aliado histórico do PSB. Alguma ala pode estar no seu governo? 

O PT fica de fora. Claramente, o resultado das urnas mostra que Pernambuco quer seguir (com o PSB). Estamos afastados desde 2012, com a eleição de Geraldo Júlio (PSB). Há algumas pessoas com quem convivi, como o senador Humberto Costa, que foi secretário de Eduardo, que tenho respeito. Mas o momento político os colocou na oposição. Vou começar meu governo com o PT na oposição.

Como fica a situação de Roberto Amaral, ex-presidente do PSB, que gravou programa para Dilma, apesar de o partido ter definido apoio a Aécio. Tem lugar para ele no PSB? 

Tem. Agora, essa discussão precisa ser feita após as eleições. É um quadro histórico do partido e como presidente sabia muito bem da necessidade de termos orientações que devem ser seguidas.

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Dúvidas ainda cercam jato da campanha de Eduardo Campos

PF ainda não sabe determinar as causas do acidente nem confirmou se a aeronave tinha sido paga com caixa 2

Ricardo Brandt, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 17h05

Dois meses e uma semana depois da queda do Cessna Citation do então candidato à Presidência Eduardo Campos em Santos, a Polícia Federal ainda não sabe determinar as causas do acidente nem confirmou se a aeronave tinha sido paga com caixa 2 da campanha do PSB.

A descoberta do que provocou a queda e de quem eram os proprietários do jato é essencial para que a Justiça determine não só se houve um acidente, como para acionar a responsabilidade pelos prejuízos causados. A explosão da aeronave atingiu oito casas diretamente e outras 13 foram interditadas.

Oficialmente, três empresários de Pernambuco, com ligações diretas e indiretas com o candidato se apresentaram como compradores do jato - avaliado em US$ 8,5 milhões.

João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho, Apollo Santana Vieira e Eduardo Freire Bezerra Leite - os três já envolvidos em processos sobre delitos financeiros - apresentaram um contrato de gaveta assinado com o dono do Cessna, segundo o registro da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac): a AF Andrade, um grupo de usineiros da região de Ribeirão Preto.

O jato está financiado num leasing com a Cessna Finance, e quem detém os direitos de uso ainda é a AF.

Para justificar os primeiros pagamentos de cinco parcelas, no total de R$ 2 milhões, eles apresentaram como origem do dinheiro cinco empresas, sendo três sem lastro financeiro ou que sequer tinham sede. 

Por meio de seus advogados, os empresários disseram não haver irregularidade na aquisição. O PSB informou que os valores pela utilização da aeronave seriam lançados futuramente nas prestações de contas - elas, no entanto, ainda não foram apresentadas à Justiça Eleitoral.

Como não eram donos do jato nem a aeronave servia para locação, o uso não pode ser considerado legal. presidente sabia muito bem da necessidade de termos orientações que devem ser seguidas. 

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