Atriz torturada denunciou coronel em 1985

A chamada Nova República engatinhava. O presidente José Sarney assumira em março de 1985, no lugar de Tancredo Neves, e o País respirava liberdade após 21 anos de ditadura. Quatro meses depois da posse, o novo presidente foi ao Uruguai - era sua primeira viagem ao exterior. Na pauta, a integração sul-americana. Cumpridos os protocolos, a viagem tinha tudo para ser um sucesso diplomático.

EDMUNDO LEITE, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2013 | 02h01

Mas um encontro inesperado desencadeou, em Montevidéu, uma das primeiras crises do novo governo. Em uma das cerimônias, uma integrante da comitiva, a deputada Bete Mendes - conhecida atriz e militante política da época - viu diante de si ninguém menos que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, exatamente o homem que a havia torturado nos porões do DOI-Codi. Ustra era adido militar na Embaixada brasileira.

O coronel também reconheceu sua antiga vítima e, junto com a mulher, aproximou-se da deputada, procurando mostrar cordialidade. Bete Mendes engoliu seco e decidiu manter as aparências exigidas pelo cerimonial. Tão logo retornou ao Brasil, porém, a atriz deputada escreveu uma carta a Sarney:

"Não posso calar-me ante a constatação de uma realidade que reabriu em mim profunda e dolorosa ferida... Digo-o, presidente, com conhecimento de causa: fui torturada por ele."

Sarney chegou a anunciar o afastamento de Ustra, mas o Exército se opôs. Como Ustra já tinha substituto escolhido e data para sair antes da denúncia, Sarney optou por deixar tudo como estava. E, alegando que a Lei da Anistia era para ambos os lados, anunciou que não iria admitir uma "caça às bruxas".

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