Ato do MST acaba em conflito no Pará

Confronto na Fazenda Cedro, do banqueiro Daniel Dantas, deixou pelo menos 12 sem-terra feridos; empresa e movimento trocam acusações

CARLOS MENDES , ESPECIAL PARA O ESTADO / BELÉM, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2012 | 03h01

Um confronto entre integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) e seguranças da Fazenda Cedro, do Grupo Santa Bárbara - pertencente ao banqueiro Daniel Dantas -, em Marabá, no sudeste do Pará, deixou pelo menos 12 feridos na manhã de ontem. Segundo informações da Polícia Civil e de hospitais da região, até o início da noite três vítimas, que foram atingidas por disparos de arma de fogo, permaneciam internadas.

Um homem levou dois tiros na barriga e outro um tiro na perna. Uma criança de dois anos foi atingida por um tiro de raspão na cabeça. A identidade das vítimas não foi divulgada. Todas são sem-terra, diz o MST.

A fazenda foi ocupada há três anos pelo movimento, que promoveu ontem um protesto na área. Em nota, o Grupo Santa Bárbara acusou o MST de invadir a sede da propriedade com "300 homens fortemente armados, destruir parte do imóvel e provocar pânico entre os funcionários". Seguranças teriam reagido.

O clima era tenso na região. Depois que os feridos foram levados para Eldorado dos Carajás, distante 50 quilômetros do local do conflito, o MST interditou a rodovia PA-155 em frente à fazenda, provocando grande engarrafamento de veículos. O secretário de Segurança do Estado, Luís Fernandes, determinou o envio de policiais militares e civis para o local, enquanto a Polícia Civil de Marabá abriu inquérito para apurar o caso. Policiais apreenderam armas dos seguranças da fazenda.

De acordo com a versão do coordenador estadual do MST, Ulisses Manaças, cerca de 500 sem-terra participavam em frente da fazenda de uma manifestação "pacífica" para marcar o dia de mobilização global em defesa do meio ambiente, alusivo também à cúpula dos povos e à Rio+20, quando foram atacados por "pistoleiros".

Manaças disse que a fazenda foi escolhida como local do protesto porque é o símbolo do "modelo de utilização de agrotóxicos e da grilagem de terra".

Ele assegurou que os manifestantes não chegaram a entrar na sede da fazenda e que o ato de protesto ocorria "apenas na rodovia", embora tenha admitido que o MST mantém há três anos, no interior da propriedade, um acampamento com mais de 300 famílias. "Os pistoleiros começaram a atirar sobre os trabalhadores", afirmou Manaças.

'Reincidente'. Em sua nota, o Grupo Santa Bárbara - que não fala sobre a existência de feridos no conflito - afirma que o MST é reincidente em ataques armados contra a propriedade e que já avisou as autoridades paraenses sobre os danos provocados pelo movimento. "A situação ocorrida na Fazenda Cedro reflete uma realidade antiga na região, de violências e atentados. O balanço do grupo mostra que, desde 2008, quando a Fazenda Maria Bonita foi invadida, os invasores já mataram mais de 3.500 bovinos nelores nessas fazendas."

O comunicado do grupo ressalta que o gado estaria sendo abatido de forma cruel e esse abate clandestino equivaleria a mais ou menos 700 mil quilos de carne. Esse volume daria para alimentar mais de 70 mil pessoas durante 30 dias, de acordo com levantamento feito pela Agropecuária Santa Bárbara. Segundo a empresa, o patrimônio está sendo destruído pelo MST e seus funcionários e familiares são expulsos de suas moradias numa "afronta" ao direito de propriedade.

Invasões. A Fazenda Cedro é ocupada pelo MST desde 2009. Ao todo, seis fazendas do grupo de Daniel Dantas no sudeste do Pará estão nas mãos de movimentos sociais.

Eles reivindicam a desapropriação das áreas pelo governo federal para assentamento das famílias dos agricultores. O Grupo Santa Bárbara já pediu o despejo dos invasores e obteve liminar no Tribunal de Justiça do Estado.

A Ouvidoria Agrária Nacional propôs um acordo judicial perante a Vara Agrária de Marabá, pelo qual os movimentos sociais, com apoio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), desocupariam três fazendas (Espírito Santo, Castanhais e Porto Rico), enquanto outras três (Cedro, Itacaiúnas e Fortaleza) seriam desapropriadas para o assentamento das famílias. As partes ainda não chegaram a um entendimento sobre o acordo.

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