'Até livros doei', diz Demóstenes sobre seus bens

Em novo discurso no Senado, ele diz que não tirou nenhum 'proveito financeiro' da amizade com Carlos Cachoeira

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h05

Em mais dois discursos feitos ontem, de novo diante de um plenário vazio, o senador Demóstenes Torres voltou a se defender das acusações de ligações com o contraventor Carlinhos Cachoeira, afirmando que seu patrimônio "é limpo" e que não tirou nenhum "proveito financeiro" dessa relação. "Sou limpo, meu patrimônio é limpo e quem quis me sujar não reuniu elementos nem colocando quatro delegados e dez agentes para me bisbilhotar, durante quatro anos, 24 horas por dia", afirmou, numa leitura que no total durou 45 minutos e durante a qual não se afastou do texto para nenhum comentário.

Segundo o senador, seus bens atualmente são modestos. Disse ainda que adquiriu um imóvel, com financiamento do Banco do Brasil, e que o pagará durante 30 anos. "O que mais tenho mesmo são discos. Tinha também muitos livros, mais de 5 mil exemplares, mas dei minha biblioteca inteira para instituições públicas de Goiás", informou. "A depressão que me invadiu nesse episódio dos ataques à minha honra me impede de ler e ouvir música, os dois maiores prazeres de que desfruto", completou.

No total, o senador fez durante a semana cinco discursos, que romperam um silêncio de 116 dias. Um de seus argumentos centrais foi que as provas de que teria ligação com o contraventor Carlinhos Cachoeira foram colhidas ilegalmente. Sua avaliação é que não poderia ser investigado sem o aval do Supremo Tribunal Federal (STF) por ter foro privilegiado. E as conversas dele com o "amigo" Cachoeira, que embasam o pedido de cassação, afirmou, foram editadas.

Linha de defesa. A estratégia dos discursos em plenário foi desenhada entre Demóstenes e seu advogado, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que tem recebido previamente os discursos para analisá-los e fazer sugestões. Para Kakay, seu cliente não tem como fugir da linha de defesa que questiona a ilegalidade das provas.

Uma contagem das principais palavras usadas nos discursos confirma a estratégia jurídica. Nos discursos de Demóstenes, a expressão campeã de menções até agora é "perito", com 37 vezes, seguido por "Supremo", 31, e "perícias", 28. Depois vêm "desculpas" (24) e "perdão" (21).

Em nenhuma das falas o senador mencionou o fato de ter recebido um aparelho Nextel do contraventor - por meio do qual falou com ele, segundo a PF, 416 vezes. Demóstenes confessou ao Conselho de Ética que a conta era paga por Cachoeira. Sua defesa admite que o caso do Nextel é o mais delicado entre todas as acusações. "É justo cassar um senador da República com base no Nextel? Eu não considero que isso seja motivo de cassação", argumenta o advogado. / R.B.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.