Assembleia cria funcionários 'quase fantasmas'

Lideranças do Legislativo nomeiam pessoas que trabalham no interior, embora a função não seja prevista nesse tipo de gabinete

FERNANDO GALLO , FABIO SERAPIÃO , JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2011 | 03h02

Funcionária comissionada da 2.ª secretaria da Assembleia Legislativa de São Paulo desde março de 2009, a estudante de publicidade Camila Joly, moradora da cidade de Santa Gertrudes, a 160 km de São Paulo, afirma que viaja diariamente à capital para exercer o cargo na sede do Palácio Nove de Julho. O chefe de gabinete da 2ª Secretaria, Edinilson Vicente, superior de Camila, no entanto, assegura que ela trabalha no gabinete estendido do deputado Aldo Demarchi (DEM), 2.º secretário, em Rio Claro.

Na quinta-feira, o Estado alcançou Camila pelo telefone na sede do jornal A Cidade, de Santa Gertrudes, onde ela trabalha como repórter. "Na verdade eu trabalho aí mesmo (em São Paulo). Mas eu presto alguns serviços aqui, como se fosse um bico. Vou todos os dias para São Paulo. É que hoje calhou de você ligar e eu estar aqui", disse Camila, que também faz faculdade em Rio Claro. Ela não foi à Assembleia nem na quinta e nem na sexta. Procurado, Vicente afirmou que a estudante, assim como dois parentes dela, trabalham no interior. "Todos eles trabalham em Rio Claro, na região do deputado." Demarchi não atendeu as ligações em seu celular.

Exemplo da falta de controle de presença dos funcionários e da falta de dispositivos para que o cidadão fiscalize as atividades que desempenham, situações semelhantes à de Camila se repetem em gabinetes, lideranças partidárias e na Mesa Diretora da Assembleia e foram flagradas pelo Estado. Funcionários passam dias a fio sem aparecer na Casa, assessores - supostamente - cumprem jornada dupla em cidades distantes, ocupantes de cargos comissionados afirmam cumprir jornada na Casa todos os dias, mas raro ou quase nunca são vistos.

Outros exemplos. Lotado na liderança do PSDB há quase três anos, Bruno Siniauskas é gerente comercial de uma fábrica fornecedora de peças para o setor automobilístico em Matão, a 300 km da capital. Além disso, é representante de uma empresa em Osasco, segundo seu padrinho político, deputado Celso Giglio (PSDB). Apesar disso, Giglio diz que Siniauskas consegue tempo para representá-lo politicamente: "Ele fica na extensão no meu gabinete. Tenho escritório em Osasco. Não é nenhum fantasma não, eu jamais permitiria isso".

Segundo Giglio, o funcionário "desenvolve toda a atividade, desde atendimento da área social, todo tipo de coisa que é inerente a função do deputado" e fica em Matão apenas duas vezes por mês. Na primeira tentativa de contato telefônico, feita na quinta-feira, o Estado localizou Siniauskas na fábrica. Ao ser indagado sobre como conciliava todas as ocupações, pediu que a reportagem ligasse no dia seguinte. Não atendeu mais às ligações.

No comando da 3.ª vice-presidência da Assembleia, o PMDB emprega o diretor da Rede Interlagos de Televisão, José Luis Borsato, que sustenta que vai todos os dias à Casa, onde não tem nem sequer uma mesa. Na 3.ª vice, no entanto, a versão é diferente. Borsato raramente aparece por lá porque a maior parte de sua atuação é em atividades externas do deputado Jooji Hato (PMDB).

O diretor da TV diz que sua dupla jornada não prejudica nenhuma das funções. "De maneira alguma. Pelo contrário, eu beneficio as duas. Da mesma forma que tenho as informações precisas da Assembleia, eu as repasso nos programas", explica.

Éverson Inforsato é funcionário de confiança da liderança do PT. Ex-secretário do deputado Edinho Silva quando este era prefeito de Araraquara, Inforsato é diretor das categorias de base da Ferroviária, tradicional clube de futebol da cidade. Responsável pela assessoria de esportes na liderança, ele afirma que vem a São Paulo três vezes por semana. Na prática, acompanha seu padrinho político. "Eu fico pelo menos uns três dias aí (São Paulo) e depois aqui na região, onde tem a sede do Edinho", diz.

O assessor passou a trabalhar na Assembleia quase um mês após Edinho tomar posse.

Líder do PT, Ênio Tatto justifica a contratação afirmando que o trabalho dos assessores não se resume ao gabinete. "O PT é muito organizado e desenvolve trabalhos no Estado todo. Ele pode muito bem desenvolver outro trabalho e exercer suas funções políticas. A militância do PT é assim. Trabalhamos o dia inteiro e a noite vamos cumprir nossos trabalhos políticos."

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