Assassinato político é resquício de coronelismo, dizem professores

Caderno publicado pelo 'Estado' no domingo, 13, revelou que, desde a Lei da Anistia, Brasil registrou 1.133 crimes

Ricardo Chapola e Mateus Andrighetto Tamiozzo, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2013 | 02h12

Estudiosos da política brasileira afirmam que os assassinatos motivados por disputa de poder eleitoral, alvo do caderno especial Sangue Político, publicado pelo Estado no último domingo, 13, mostram resquícios de coronelismo no País. A série de reportagens revelou que, desde a Lei da Anistia, o Brasil registrou 1.133 crimes com motivação política.

"Eu entendo que essa violência é resquício do coronelismo que prevaleceu na história política do Brasil, mesmo depois de a República Velha ter terminado", afirmou o professor de Ciências Políticas da Escola de Sociologia e Política de São Paulo Aldo Fornazieri. "Somos um país violento. A violência política faz parte desse contexto."

O argumento de que o País tem a violência em seu DNA também foi usado por outros especialistas. "A violência é um componente da sociedade brasileira desde sempre. Existe essa nossa herança histórica e um processo de democratização que não instituiu na sociedade valores cívicos. À luz disso passamos a compreender esses números bárbaros", disse o professor de Ciências Políticas da Unesp Milton Lahuerta.

O professor de ciências políticas da PUC-SP Pedro Fassoni afirmou que os dados das reportagens representam um "acirramento da disputa política" no País. Ele citou os elevados índices de violência registrados no Brasil e argumentou que a política não permanece alheia ao que acontece no interior da comunidade. "(As mortes) expressam uma especificidade da própria sociedade brasileira." Sobre a eficiência da Justiça, Fassoni apontou a "debilidade" do Estado para solucionar os casos. As reportagens mostraram que dois terços dos inquéritos não apontam responsáveis pelos crimes. "Isso não significa que o terço restante seja levado a julgamento. O problema é que a Justiça tarda e também falha."

Repercussão. O jornalista Rosental Calmon Alves, professor da Universidade do Texas e diretor do Centro Knight para o Jornalismo das Américas, criticou a pouca divulgação, no País, dos casos de violência por razões políticas. "Às vezes, a violência da sociedade brasileira tem mais repercussão no exterior do que aqui. Quando um jornalista é assassinado aqui, aparece mais nas organizações internacionais do que na imprensa brasileira." Para ele, isso "é reflexo do centralismo no eixo Rio-São Paulo-Brasília-Belo Horizonte". "O que acontece fora parece que aconteceu em outro país. No caso dos políticos, muitas mortes acontecem fora desse eixo. Reportagens como essa são um alerta para que se conscientize do que acontece no País. Ou somos Bélgica ou somos Índia."

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