Assassinato no mercado inicia onda de crimes

Em Caraúbas, Rio Grande do Norte, vingança de clã descamba para assaltos e mortes violentas

sangue político, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h21

Tempos depois do assassinato do vereador Antoninho Carneiro, sua irmã, Luzia, levou os sete filhos menores ao cemitério de Caraúbas (RN) para ajudá-la a exumar e limpar os ossos do chefe da família. Um dos meninos, José Vantuil Carneiro, o Vanzinho, lembra a fúria e ódio da mãe. "Ela levantou o crânio do meu tio com as duas mãos e disse que o espírito dele tinha de entrar no nosso corpo. Mãe só queria vingança."

Cinco anos antes, a 18 de outubro de 1967, o vereador desafiou o poder do delegado, o sargento Adelson, e lavou um caminhão no açude público de Caraúbas, hoje uma cidade de 19 mil habitantes da Chapada do Apodi. Foi um desafio fatal.

Vanzinho faz um relato da morte do tio: "O sargento era campeão de tiro da Polícia Militar. Houve um desentendimento entre ele e meu tio. Eles estavam na porta do mercado municipal quando meu tio esquentou a cabeça e arrastou o revólver e mandou ele arrastar o revólver também. Meu tio deu seis tiros na direção da cabeça do sargento. Foi embora, mas voltou para conferir. 'Quero olhar a cara do cachorro morto', afirmou. Mas só viu uma poça de sangue. O sargento, que não morrera, apertou o gatilho e acertou no olho do meu tio".

Com a morte do líder, os Carneiro intensificaram a violência nas relações políticas. Começava a saga do clã que, em meio à disputa por poder, pegou em armas para consumar a vingança e partiu para a criminalidade, deixando no caminho um rastro de sangue. Uma das famílias rivais eram os Fernandes, que tiveram um dos seus filhos, Nero Nazareno Fernandes, então presidente da Câmara Municipal de Caraúbas, assassinado em 1981.

Nessa época, quem liderava a família era o fazendeiro Luiz Benevides Carneiro, o Doutor Benevides, sucessor de Antoninho. Foi para sufocar os Fernandes e financiar a candidatura à prefeitura de Caraúbas de um aliado, Raimundo Amorim, o Zimar, que Benevides planejou assaltar em Mossoró, em 18 de maio de 1982, um carro que levava dinheiro do programa de emergência do governo federal aos atingidos pela seca. Vanzinho atuou na logística do assalto, que envolveu outros três homens.

O roubo era parte do plano de Doutor Benevides para virar prefeito de Caraúbas. Ele entregou os R$ 3,2 milhões (em valores de hoje) do assalto a Zimar, candidato mais viável na disputa de 1982, com o acordo de que, após concluir o mandato, o eleito lhe daria apoio para suceder-lhe. Uma pequena parte foi distribuída entre os quatro assaltantes cariocas contratados para o serviço. Dias depois, os assaltantes voltaram a Caraúbas com o filho de um deles, de apenas 4 anos, para exigir mais dinheiro. Doutor Benevides armou uma emboscada em seu sítio, na zona rural do município, e fuzilou os cinco. Doutor Benevides ainda ordenou que os mais jovens do seu bando atirassem nos corpos até a última bala para "perderem o medo". Os corpos foram queimados.

Intervenção. A partir do desaparecimento dos cariocas, a polícia do Rio Grande do Norte elucidou o assalto. O governador Aluizio Alves, do PMDB, que na campanha de 1982 sugerira que o então prefeito biônico de Natal José Agripino Maia, do PDS, hoje senador do DEM, estava ligado ao assalto, passou pelo constrangimento de ver um aliado do interior, o prefeito eleito de Caraúbas, Zimar Fernandes, como o principal beneficiário do roubo. Zimar foi preso, mas logo depois saiu e reassumiu a prefeitura, graças à influência de Aluizio Alves.

Doutor Benevides e seus parentes foram cercados pela polícia em um sítio no Piauí. Solto por intermédio de Zimar Fernandes, Doutor Benevides retomou o controle do clã em Caraúbas. E passou a cobrar de Zimar o acordo para que o prefeito o apoiasse na sua sucessão - o que ele não fez, indicando outro candidato. Era a senha para uma nova matança. Em 1992, Zimar foi acusado de executar o advogado dos Carneiro, Antonio Carneiro Filho - filho do vereador Antonio Carneiro, morto pelo sargento Adelson -, e a mulher dele, Maria da Luz Gurgel. No ano seguinte, os Carneiro mataram Zimar.

Em meio às acusações de crimes políticos, os Carneiro entraram de corpo e alma na campanha de Ana Catarina Alves para deputada federal, em 1994. Ana Catarina era filha de Aluizio Alves e irmã de Henrique Eduardo Alves, também candidato a uma cadeira na Câmara Federal.

Novo round. Depois, os Carneiro se envolveram numa disputa sangrenta com outro clã, os Simeão Pereira. O chefe dos Simeão Pereira era o médico e capitão da PM Agnaldo Pereira da Silva, que se transferiu de Patu, sertão potiguar, para Caraúbas, onde começou a trabalhar no hospital do município. Depois chegaram os irmãos João, também médico, e Elinaldo, pecuarista. Anos depois, Agnaldo seria eleito prefeito, acirrando mais a disputa com os representantes dos Carneiro.

O desentendimento entre os clãs teria ocorrido em mais um assalto para angariar dinheiro para financiar campanhas políticas. Elinaldo chamou Valdetário Carneiro, primo de Vanzinho, para assaltar uma fábrica. Valdetário não aceitou porque a fábrica era de um amigo. A partir daí, houve troca de ofensas entre os Carneiro e os irmãos de Agnaldo, Elinaldo e João.

João, também médico, foi fuzilado em 1999, com cerca de 40 tiros. Elinaldo foi morto mais tarde, em 2006. O médico e prefeito Agnaldo Pereira pregava prudência aos parentes e aliados do município.

Emboscada. Na noite de 7 de novembro de 2001, uma caminhonete Ranger fechou o Santana branco em que viajavam o prefeito Agnaldo Pereira, a primeira-dama Antonia Gurgel, a Nita, e três seguranças, na estrada RN-117, próximo a Mossoró. O Santana capotou e caiu numa ribanceira de dez metros. Os corpos de Nita e dos seguranças foram arremessados para fora. Homens saíram da Ranger atirando nos corpos. Um dos pistoleiros percebeu que o prefeito estava vivo, preso pelo cinto de segurança. O homem se aproximou, disparou dez tiros no crânio e no peito de Agnaldo e, por fim, atirou em cada olho do prefeito.

O massacre, segundo a polícia, foi uma vingança de Valdetário pela morte, dois meses antes, de Benevides. O chefe político dos Carneiro havia morrido na penitenciária de Teresina de enfarte, após uma bomba explodir em sua cela. Os Carneiro acusaram o prefeito Agnaldo de ter planejado o atentado. O governador do Rio Grande do Norte, Garibaldi Alves Filho, sobrinho de Aluizio Alves, mandou o avião do governo do Estado buscar o corpo de Benevides, que foi recebido com homenagens de herói em Caraúbas.

A prática de assaltos a carros-fortes, agências de bancos e dos Correios pelos clãs que disputavam o poder em Caraúbas levou ramificações das famílias a entrar no mundo da criminalidade comum. Vanzinho foi condenado pelo assalto de 1982 em Mossoró e por vários outros crimes a 142 anos de prisão - cumpriu 12 anos e hoje é cantor evangélico. Tempos depois das mortes dos principais chefes políticos dos clãs, parentes mais distantes foram acusados de organizar assaltos e roubos - sem conotações políticas.

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