As surpresas desta eleição

A eleição paulistana de 2012 tem revelado mais surpresas que de costume. A consolidação de Celso Russomanno na dianteira das pesquisas é uma delas. Mas, tanto a rejeição de José Serra quanto a paralisação de Fernando Haddad em índices bem inferiores à tradição petista, são, de algum modo, surpreendentes. Há, evidentemente, explicação para cada um dos casos.

CARLOS MELO, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2012 | 03h04

Imaginava-se que o esgotamento da polaridade PT-PSDB favoreceria o aparecimento de alternativas; um tertius. Muitos apostavam na viabilidade de Gabriel Chalita. E o "Chalita" que veio à luz se chama Russomanno. Conhecido da mídia e de várias eleições, o candidato do PRB favoreceu-se do recall; largou bem. Suportado pela máquina da Universal, consolidou a liderança ajudado também por uma experiente presença de vídeo.

Não foi só isso. Há disseminada percepção de que a cidade piorou: as ruas não funcionam e a burocracia municipal não dá conta da cidade que resultou do crescimento econômico. Sem ter a quem se queixar, cidadãos reduzidos a consumidores enxergam em Celso Russomanno um providencial personal Procon. Aquém da cidadania, mas uma forma de protesto.

Havia espaço destinado a uma candidatura como a sua. Por aqui, sempre vicejou um conservadorismo demandante de personalismo; um ator acima das instituições. Foi o "malufismo" que não se encerra no decadente Paulo Maluf. Um estado de espírito, uma força social, que já atendeu por adhemarismo, janismo e quercismo. A essa tradição, nos "tempos modernos", o estilo Russomanno parece se moldar melhor que os tucanos.

Por algum tempo, José Serra e Geraldo Alckmin preencheram esse espaço. Mas, genéricos, não possuem o princípio ativo. A apropriação que buscaram fazer do discurso conservador gera desconfiança em uns, decepção em outros. O "Serra neocon", de 2010, talvez tenha passado do ponto ao não conquistar a direita e afugentar os progressistas. Ao invés de ganha-ganha, um perde-perde. Seus números atuais - apoio e rejeição - indicam essa perda.

Além disso, carregar Kassab implica custos elevados. A administração não foi realizadora; qual sua marca? A cidade se verticalizou, cresceu para o alto de forma abrupta e suspeita; as ruas travaram. Políticas públicas não emplacaram. O prefeito, ativo na política, apequenou-se na gestão.

No mais, a fadiga do material, de que falou FHC: o natural desgaste de quem ocupa a cena desde 1994 - eleição para o Senado. Esta é a sétima campanha majoritária de Serra; venceu três, perdeu três. Em 2008, foi protagonista sem ser candidato. Para tamanha exposição, seria necessário reinventar-se. Mas insistiu no mesmo tom de 2010. Na TV, tem mudado, mas será o suficiente?

Por fim, hora da verdade de Fernando Haddad. O candidato patina a léguas do potencial do PT. Numa perspectiva positiva, haveria, ainda, a desatenção do eleitor: parte das intenções de votos em Russomanno migraria em sua direção. Mas, o certo é que padrinhos, tempo de TV e um programa bem feito não bastam. É necessário não errar.

A nomeação extemporânea de Marta Suplicy para o ministério foi gol contra; queimou o filme de Dilma. A preservação de Russomanno, com vistas ao segundo turno, impede a rápida retomada do eleitorado petista. Os golpes desferidos por Serra deixam marcas e não encontram resposta. O candidato, sem experiência, não tem conquistado empatia popular.

Ao que parece, o PT se preparou para enfrentar o tucano, mas a presença do tertius o surpreendeu. A militância não é a mesma e a exposição do mensalão pode não ser fundamental, mas cobra preço em ânimo e imagem. Recolhe o candidato à defensiva.

De olho no futuro, a eleição segue indefinida, volátil; aberta a surpresas e fatos novos. Seu resultado reordenará parte do sistema, organizará times e jogadores para novas disputas. De algum modo, 2014 já começou.

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