As novas caras do PT de Lula pós-mensalão

Ex-presidente aposta em apadrinhados de novo perfil para revigorar partido

ADRIANA CARRANCA E FERNANDO GALLO, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2012 | 03h03

Além de eleger Fernando Haddad para prefeito de São Paulo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva começa a consolidar uma nova cara que há mais de um ano passou a articular para o PT paulista. A renovação parte do processo que começou muito antes, na esfera federal, com o abatimento dos principais líderes pelos escândalos do mensalão - José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha - e da violação do sigilo do caseiro Francenildo - Antonio Palocci.

O sucesso eleitoral do perfil técnico e ficha limpa de Dilma Rousseff em 2010 fez o presidente decidir pela mesma estratégia em praças importantes neste ano. Em São Paulo, os apadrinhados incluem, além de Haddad, o economista Márcio Pochmann, que começou com 1% na disputa em Campinas e surpreendeu ao terminar o 2.º turno com mais de 40% dos votos; e o médico e ministro da Saúde, Alexandre Padilha, nome de Lula para a disputa ao governo paulista em 2014.

Os três não são novatos na política ou no PT, mas nunca assumiram cargos eletivos. Passam a disputar espaço com os dois que até 2010 disputavam os principais cargos em São Paulo: Marta Suplicy e Aloizio Mercadante. Ambos ainda têm intenção de disputar eleições majoritárias, embora cada vez mais asfixiados pelo sucesso do "novo".

"Há uma renovação no partido, mas não uma ruptura. Antigos nomes estão aí e com cargos importantes no governo. A nova geração inspira-se neles", diz o presidente do PT paulista, Edinho Silva. Mas, segundo dirigentes, Lula não abre mão de um rosto novo para vencer em 2014 no Estado.

Agenda. De olho no governo paulista, Padilha intensificou a agenda durante a campanha. Visitou diversas cidades em diversos Estados, participou de atos, discursou, acompanhou candidatos em debates na TV e gravou dezenas de vídeos para aliados. A rotina não é novidade: há anos ele participa ativamente da vida do partido, sobretudo aos fins de semana, quando costuma rodar o Estado.

Médico infectologista, trabalhou na Universidade de São Paulo e em projetos sobre doenças tropicais em Santarém (PA). Foi diretor na Fundação Nacional de Saúde e de lá passou ao Ministério das Relações Institucionais, onde, em 2009, chegou a ministro de Lula como articulador político do governo.

Segundo dirigentes do PT, o que o separa da candidatura é a necessidade de melhora da avaliação do Ministério da Saúde e a falta de uma marca forte que projete sua gestão. Sempre que questionado sobre 2014, Padilha devolve: "Nem penso nisso".

Pochmann, de 50 anos, por sua vez, tem 43 livros publicados. Foi operário de uma fábrica de fumo e, em seguida, ajudou a criar o PT do Rio Grande do Sul nos anos 1980. Dirigiu o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), quando conheceu Lula. Afastou-se da militância partidária para tornar-se um técnico e acadêmico - refiliou-se recentemente para se candidatar.

Foi assessor do Ministério do Trabalho no governo Itamar e secretário do Trabalho na gestão Marta Suplicy em São Paulo. Em 2007, assumiu a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em 2011, Lula o chamou para conversar. A primeira coisa que Pochmann fez ao receber um convite para se candidatar foi lançar um livro, com indicadores de Campinas - a nova face do PT não faz piquete, faz pesquisa.

No entendimento de Lula, antigos nomes do partido já não dialogam com uma sociedade que deixou de depender da indústria - onde o sindicalismo era importante - para viver dos serviços: consome mais, tem mais acesso à educação, à internet e se preocupa com sustentabilidade.

ABC. Para Pochmann, o PT tradicional "se esvaziou". "O quadro dirigente foi forjado num outro Brasil, cada vez mais distante", disse. Apesar de tudo, dois nomes com origens no sindicalismo também fazem parte do jogo do novo PT. Um deles, o prefeito de Osasco, Emídio de Souza, que foi filiado ao sindicato dos metalúrgicos da cidade. Ele se movimenta para ter protagonismo na disputa de 2014. O outro é Luiz Marinho, que chegou a ser cotado para o governo, mas foi aconselhado por Lula a fazer um bom segundo mandato como prefeito de São Bernardo para ter uma boa gestão como vitrine eleitoral.

Ministro do Trabalho e da Previdência no governo Lula, é considerado por colegas de partido como o herdeiro político do ex-presidente. Se os planos de Lula derem certo, o ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) virá, mais à frente, a significar o encontro do PT da renovação com o PT sindical de suas origens.

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