Felipe Rau/Estadão - 12/11/2021
Felipe Rau/Estadão - 12/11/2021

Arthur Virgílio: ‘Temos que reconquistar o peso que o PSDB tinha’

Ex-senador que disputa prévias com Doria e Leite afirma que partido precisa se ‘desbolsonarizar’

Entrevista com

Arthur Virgílio, ex-senador

Pedro Venceslau e Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 05h00

O ex-senador Arthur Virgílio afirmou que o PSDB precisa se "desbolsonarizar", independentemente de quem vencer as prévias marcadas para hoje, e que a sigla tem de "reconquistar" o peso que tinha nos governos Fernando Henrique Cardoso. "É o partido que deixou o maior legado e mudou o País", afirma. Ao Estadão, Virgílio disse que, em caso de derrota na eleição tucana contra os governadores João Doria (SP) ou Eduardo Leite (RS), vai apoiar o vencedor na eleição de 2022.

Leia abaixo a entrevista.

Em caso de vitória no domingo, o sr. admite a hipótese de abrir mão da cabeça de chapa para compor com outro nome da terceira via caso ele esteja mais bem colocado nas prévias?

É óbvio que, na hipótese de vitória, farei tudo para consolidar a candidatura e unir o PSDB com princípios muito rígidos e muito claros. Um é a "desbolsonarização" do partido. O partido não pode ter maioria de pessoas que sigam o Bolsonaro, votando do jeito que votam (no Congresso). É preciso que se restabeleça um esquema de disciplina. Se não, o partido não retoma a respeitabilidade. A gente pode se esforçar, pode se matar aqui, mas não retoma a respeitabilidade se continuar esse clima de ataques sistemáticos à política econômica, se é que a gente pode chamar de política econômica, do presidente Bolsonaro. A política econômica do presidente Bolsonaro e as atitudes dele representam a cada dia um ataque ao alicerce do Plano Real, que é o grande sustentáculo da economia brasileira. Mas é óbvio que, para fazer a terceira via, tem que conversar muito e, se surge alguém mais preparado, com mais perspectiva de voto que você e capaz de agregar mais do que você é capaz de agregar, creio que é razoável que você pense nisso. O que não é razoável é você achar que os deuses estão sempre ao seu lado. Essa política da vaidade não é boa. Na hipótese de ser candidato a presidente, darei o impossível para consolidar a candidatura. Mas, obviamente, na hipótese contrária, tenho de analisar a perceptiva de fortalecer a terceira via, nem que seja com outro nome, desde que seja um nome sério, que seja encarne o que a gente pode imaginar que seja uma terceira via, que seja saída de um impasse.

Se o sr. perder as prévias, se compromete a apoiar o vencedor em 2022?

No debate da CNN, arranquei esse compromisso dos dois (Doria e Leite). Os dois se comprometeram, diante das câmeras, a ficar no PSDB em qualquer circunstância.  Então, não seria eu a largar o PSDB. Não largaria jamais. Só largaria o partido para deixar a vida pública. Não consigo caber em outro partido. Tenho respeito por outros partidos, por componentes de outros partidos. Minhas medidas só dão no PSDB, não dão em outro partido. Por mais respeito que possa ter por militantes e outros partidos brasileiros. Mas eu sou do PSDB. Ficaria com o mesmo entusiasmo e com o mesmo compromisso. É fazer desse um partido novamente um partido grande e com qualidade. Um partido capaz de retomar o caráter reformista que ele tinha, vanguardista, exitoso no governo Fernando Henrique Cardoso, acabando a com hiperinflação, estabelecendo o tripé macroeconômico. Eu apoio o vencedor com maior tranquilidade.

Se vencer, pretende convidar os adversários para equipe de campanha?

Se eu vencer, não teria dúvida de estar bem próximo de meus atuais adversários e companheiros, embora eu enfrente condições muito adversas com essa história de voto de mandatário valer mais que voto de filiados. Nós ainda não temos uma eleição aberta para todos os 1 milhão e 400 mil filiados. Eu me daria melhor numa eleição aberta, com todo mundo votando. Mas aceitei essas condições porque quero que as prévias se enraízem no PSDB. As próximas serão melhores.

Como o PSDB sai das prévias: rachado ou fortalecido?

Vejo gente que tem interesse em rachar. Não acho que isso irá prevalecer. Vejo que temos um trabalho grande que tem de ser feito com ajuda dos três candidatos. Entendo que o PSDB sai fortalecido. Precisamos fortalecer essa questão da presença bolsonarista, dessas pessoas que se acomodaram com o ritmo do Bolsonaro, se acomodaram ao esquema de emendas, do jeito que o Bolsonaro trata essa questão. Temos um trabalhão pela frente, mas o PSDB, do ponto de vista dos três candidatos, sairá unido. A mudança essencial, repito, é a "desbolsonarização" do partido. Consegui, ao longo desses debates todos,  uma das coisas que queria: pregar democracia. Creio que democracia virou um mote nos debates, nas minhas viagens nos Estados, falei muito, muito das vantagens da democracia. Democracia coloca comida na mesa. Ditadura ou candidatos a líderes autoritários, eles tiram comida da mesa e botam o povo para comer osso. Essa é a verdade. Foi assim tanto na esquerda quanto na direita. O partido sai fortalecido, sim. Mas um fortalecimento incipiente. Temos de reconquistar aquele peso que o PSDB tinha. Fico impressionado porque, nas pesquisas, o PT aparece, disparado, como partido preferido dos brasileiros, em segundo lugar, bem atrás, vem sempre o PSDB. O PSDB tem uma memória, uma memória muscular eleitoral boa, fez muita coisa pelo País, é o partido que deixou o maior legado e que mudou mais a cara do País em oito anos do que o PT em quatro eleições. Nós temos as conquista todas. Mas não podemos viver dos louros passados.

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