Arrastão: medo em casa e na pizzaria

Quadrilhas invadem restaurantes e roubam clientes em onda de ataques em São Paulo; ações em condomínios também registram recorde na cidade

PABLO PEREIRA, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h08

Sair para jantar e ser atacado, acuado, roubado - e terminar o que deveria ser uma deliciosa noite de pizzas em um depoimento em delegacia. Ou chegar em casa à noite, após um dia de trabalho, e deparar-se com um bando de salteadores fazendo um arrastão no condomínio. As cenas têm se tornado cada vez mais comuns em São Paulo, cidade que vive uma onda de ataques de quadrilhas a prédios residenciais e restaurantes.

"Demorou menos de cinco minutos", disse o empresário José Eduardo Mendonça Filho, de 23 anos, pernambucano, que, em viagem a São Paulo, jantava na pizzaria Bráz, na Rua Sergipe, em Higienópolis, bairro nobre vizinho do centro de São Paulo, no momento de um arrastão. "Esse pessoal daí está muito corajoso. Em Recife isso aí ainda não chegou, não."

Segundo o relato das vítimas na delegacia, os bandidos eram liderados por um homem armado que vestia camiseta amarela com letras brancas e jeans. Sob a mira da arma, clientes foram obrigados a entregar bolsas de grifes, relógios, casacos, carteiras, cartões bancários, de crédito, cartões de planos de saúde, celulares e dinheiro. Um dos frequentadores perdeu R$ 2 mil em dinheiro; outro, R$ 1.200, segundo o Boletim de Ocorrência (BO) registrado no 78.º Distrito Policial como roubo (art. 157 do Código Penal).

O terror dos ataques de arrastão em restaurantes em São Paulo segue tendência de aumento registrada também contra prédios residenciais. De acordo com o delegado Mauro Fachini, do Deic, encarregado de esclarecer esse tipo de assaltos a residências, de janeiro a maio deste ano a cidade já havia registrado 12 ataques, alcançando número igual ao de todo o ano passado. "As quadrilhas agora mudaram o alvo", explicou Fachini. Segundo ele, os ladrões estão mirando em prédios de médio padrão, considerados de acesso mais fácil.

"Foi o que aconteceu nos últimos dois casos, da Rua Lacerda Franco e da Rua Jaci", disse o policial. De acordo com Fachini, até maio 9 dos arrastões da cidade no ano foram solucionados. "Temos 33 pessoas presas", afirmou. Outros quatro casos ainda estão em investigação no Deic, informou o delegado. Os crimes se concentram mais nas áreas dos Jardins e de outros bairros da zona sul. Os ataques, no entanto, continuaram em junho. Levantamento publicado no Estado na terça-feira mostrava que o número de arrastões no ano já chegava a 27 casos.

Competências. Em tese, a segurança pública está a cargo do governo estadual, não da Prefeitura. Engana-se, no entanto, quem pensa que a realidade também é assim. Há uma série de medidas que um prefeito pode tomar para prevenir a violência: desde ações simples como melhorar a zeladoria urbana, a iluminação das ruas e colocar câmeras de vigilância, passando por questões culturais e educacionais, de legislação e infraestrutura. Uma rua sem luz, suja e abandonada aumenta a sensação de criminalidade - além de ser um prato cheio para ladrões. A desigualdade social em bolsões de pobreza e bairros com urbanização deficiente também tem papel determinante nos índices de criminalidade. Isso sem falar em locais onde o poder público é totalmente ausente e o crime se torna modelo de sucesso financeiro.

Até as mais simples das infrações pode influir na criminalidade. Uma pesquisa feita por pesquisadores holandeses, por exemplo, mostra que a marca de pichações em um local pode dobrar o número de pessoas dispostas a jogar lixo no chão e até a roubar. "É uma clara mensagem aos gestores públicos que prevenir a desordem é a melhor maneira de impedir a disseminação da violência", escreve Kees Keizer na pesquisa publicada na revista Science, uma das mais prestigiadas publicações científicas do mundo.

Carteiro. Na Rua Lacerda Franco, na Aclimação, o pânico dos moradores começou no início da noite de 22 de maio e durou quatro horas. O personal trainer Cristiano Maffra, de 34 anos, mineiro que vive em São Paulo há dez anos, foi um dos moradores surpreendidos. Ao chegar à garagem, foi dominado por um homem armado e levado ao salão de festas, onde já havia cerca de 20 pessoas.

O bando invadiu o prédio após um criminoso se fazer passar por carteiro. Segundo a polícia, o grupo era formado por 19 homens. Eles interrogavam os moradores antes de selecionar os apartamentos a serem roubados. "Eles amarravam as pessoas e colocavam fita na boca", lembrou Maffra. Ele recorda que o síndico foi agredido pelos ladrões por ter protestado. A quadrilha fugiu depois de invadir vários apartamentos.

Na ação, os ladrões abordaram o norte-americano Blake Farber, de 26 anos, que estava hospedado no apartamento de Maffra. Morador de Nova York, Blake contou que se preparava para descer com Zeca, um simpático cão da raça staffordshire, pertencente ao amigo personal trainer. "Eles tomaram o prédio inteiro. Levaram computador, meu passaporte, minha câmera, e o Zeca."

Blake contou que adora o Brasil, onde visita o amigos. E garante: não pretende deixar de visitar a cidade por causa do episódio do arrastão.

O norte-americano lembrou que sua cidade também já viveu clima de forte insegurança, mas que o quadro mudou. "Os índices de criminalidade já foram bem altos nos anos 90. Mas agora não bem mais baixos", argumentou. "Só câmeras e polícia não basta", afirmou. "É preciso investir em educação na periferia para evitar que o jovem conheça o crime." Uma semana depois da invasão, o cão Zeca foi recuperado por policiais do Deic. Foi encontrado com crianças em uma favela na zona leste, Zeca foi devolvido ao dono, e virou celebridade na Aclimação.

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