Arminio Fraga
Arminio Fraga

Arminio e diretor do BNDES defendem posições distintas sobre papel do Estado

Principal assessor econômico de Aécio Neves e João Carlos Ferraz, do BNDES, mostram visões diferentes em evento realizado em Washington pela Câmara do Comércio Brasil-EUA

Cláudia Trevisan , Correspondente/O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2014 | 23h20

WASHINGTON - Governo e oposição levaram seu embate econômico a investidores estrangeiros nesta sexta-feira, 10, com Arminio Fraga retratando uma economia que está “quase derretendo” e o diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) João Carlos Ferraz apontando para novas “fontes de dinamismo” para o crescimento. Em comum, o diagnóstico de que o atual nível de investimentos é insuficiente para gerar desenvolvimento sustentável do País.

Na avaliação de Ferraz, o patamar próximo de 17% do PIB é “ridículo” diante das necessidades brasileiras. Nesse cenário, disse, o BNDES atua como um “colchão” de financiamento para as empresas. Fraga vê o excesso de dirigismo governamental como um dos principais fatores que mantêm o nível de investimentos deprimido.


Principal assessor econômico do tucano Aécio Neves, ele defendeu um alinhamento “suave” da política fiscal, que se estenderia por um período de dois a três anos. Segundo Fraga, há “muita gordura para cortar” no setor público, o que permitiria realizar o ajuste sem cortar programas sociais.

Ambos falaram em momentos distintos de evento realizado em Washington pelo Wilson Center, Brazilian-American Chamber of Commerce e Brazil-US Business Council. Fraga participou por vídeo durante a manhã, enquanto Ferraz ocupou o lugar de Luciano Coutinho, presidente do BNDES, no discurso do almoço - Coutinho cancelou sua participação por problemas familiares.

Papel do Estado. No centro da discussão estava o papel do Estado e do BNDES na economia e no desenvolvimento do país. Fraga criticou intervenções do governo para controlar preços administrados e a taxa de câmbio, defendeu aproximação com os EUA e distanciamento dos governos bolivarianos, propôs maior abertura ao exterior e sugeriu critérios mais rígidos para os empréstimos subsidiados do BNDES.

“Nós vimos esse filme antes. Essas coisas funcionam por algum tempo, mas depois voltam para assombrá-lo”, afirmou, em relação às ações governamentais para controlar preços e câmbio.

Fraga afirmou que o país enfrenta dificuldades em mobilizar capital para investimentos, o que atribuiu ao excesso de dirigismo e ao abandono do modelo de agências regulatórias implantado na gestão de Fernando Henrique Cardoso. 


“O resultado é que o investimento agregado continua a cair, apesar de um grande número de programas e subsídios do governo. O fato básico é que o investimento está em 16,5% do PIB, o mais baixo patamar em um longo período.”

Apesar de concordar com o diagnóstico de baixo investimento, Ferraz afirmou que estão em gestação novos motores de expansão do país. “Estamos diversificando nossas fontes de crescimento e isso significará um processo de desenvolvimento menos vulnerável e mais sustentável.” Ferraz disse que impulso virá do mercado doméstico, da construção de infraestrutura e das exportações.

BNDES. Em seu cenário, o BNDES continuará a desempenhar um papel central no financiamento, especialmente de infraestrutura. Se o programa federal de logística for implementado, haverá aumento nos investimentos de 1,5% do PIB nos próximos cinco anos, estimou.

Fraga defendeu critérios mais rígidos e transparentes para concessão de empréstimos pelo BNDES, lembrando que o Tesouro Nacional repassou o equivalente a 10% do PIB à instituição, recursos que foram utilizados na concessão de crédito com juros subsidiados. “Deve haver critérios estritos, claros e transparentes, que possam ser analisados e avaliados. Nada disse ocorre hoje.” Segundo ele, muitas das empresas favorecidas não precisavam do benefício, como a Petrobrás e grandes empresas privadas.

Ex-presidente do Banco Central, Fraga refutou o argumento do governo de que o Brasil sofre os efeitos dos ventos adversos da economia global. O ritmo de expansão do país tem ficado em dois pontos porcentuais abaixo do registrado na América Latina, mesmo quando são incluídos Argentina e Venezuela, afirmou. E no mundo, há economias crescendo a zero e outras a 7%. “E nós estamos em zero.”

Inflação. O índice de inflação - que está em 6,75% ao ano - não reflete a situação real, ressaltou, em razão da contenção de preços administrados. “O governo está segurando alguns preços, incluindo o preço de combustíveis, o que é um crime ambiental”, destaca Fraga. O indicador também é afetado pela “pesada intervenção” para evitar que a moeda se deprecie em relação ao dólar e encareça as importações, observou.

Em sua avaliação, a política oficial para combater a inflação é “esquizofrênica”. Enquanto o Banco Central aperta a política monetária com a elevação dos juros, o Tesouro e os bancos oficiais injetam recursos na economia, em uma tentativa fracassada de estimular a produção.

Os juros altos têm impacto negativo sobre as decisões de investimentos, já que tornam mais atrativo aplicar recursos em títulos do Tesouro do que em atividades produtivas, reconheceu Ferraz. E apesar de defender a relevância do BNDES, ele ressaltou a importância do investimento privado para o crescimento.

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