Arapongas de Cachoeira ofereciam mailing a políticos

Serviço, que consistia em rastrear ilegalmente e-mails, podia render ao grupo R$ 0,40 por mensagem; atuação se estendia a 4 Estados

FÁBIO FABRINI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h05

De olho em novos negócios, nas eleições de 2012, os arapongas do esquema de Carlinhos Cachoeira estavam se dedicando a uma nova frente de atividades. Suspeitos de violação de sigilo e interceptações ilegais, eles ofereciam a políticos de várias partes do Brasil a possibilidade de rastrear os e-mails dos eleitores de sua região e, em seguida, usar os endereços eletrônicos para o envio de propaganda. Um serviço promissor, que poderia render ao grupo R$ 0,40 por mensagem.

Os detalhes da operação surgiram nos grampos da Polícia Federal na Operação Monte Carlo. Supostamente testado em Nova Iguaçu (RJ) e em outras cidades pelo policial federal aposentado Joaquim Gomes Thomé Neto, acusado de quebrar caixas de e-mails de políticos para o grupo do contraventor, o projeto consistia em instalar uma central na cidade alvo para rastrear os correios eletrônicos dali. A partir disso, identificavam-se quais estavam ativos. O candidato comprava o banco de dados para enviar mala-direta com autoelogios ou críticas a adversários.

Fora políticos do entorno de Brasília e cidades fluminenses, os arapongas escolheram como clientes potenciais o prefeito de Cuiabá, Chico Galindo (PTB), e até o governador de Mato Grosso, Silval Barbosa (PMDB), aos quais pretendiam oferecer seus serviços. A Polícia Federal informa que é crime rastrear endereços de e-mail, mesmo quando o conteúdo não é acessado.

Numa das conversas, interceptada em 18 de fevereiro passado, o sargento da Aeronáutica Idalberto Matias, o Dadá, pede a Jairo Martins, apontado pela PF como araponga, que acelere a conversa com a "prefeita", em Valparaíso de Goiás. O objetivo era marcar uma reunião de apresentação. "Instala uma central dentro do Valparaíso, rastreia todos os e-mails que existem de pessoas de 16 anos até 100 anos", explica ele, ao descrever o sistema. Além do preço de cada e-mail - que era R$ 0,33 inferior ao cobrado por uma correspondência enviada pelos correios -, ele destaca a interatividade: "A carta você não sabe se a pessoa recebeu. O e-mail você tem a resposta de volta, sabendo quantos responderam à mensagem. É um sistema mais seguro".

O objetivo de Dadá era enviar um funcionário da Delta Construções para fazer um curso com Thomé no Rio de Janeiro e, em seguida, montar filial em Brasília para buscar novos clientes com os quais operar nas eleições deste ano. "O negócio é lucrativo. Se pegar três cidades, rende", entusiasma-se ele.

Valparaíso de Goiás é administrada pela tucana Leda Borges, que nega ter recebido qualquer oferta de Martins. Nas eleições de 2008, o araponga foi candidato a vice na chapa adversária dela, da petista Lucimar Nascimento, que se lançará à reeleição este ano. Nos áudios, Dadá diz ainda que o serviço será vendido a Geraldo Messias (PP), prefeito de Águas Lindas de Goiás. Ele, no entanto, também nega contatos com o grupo.

Mala-direta. Num telefonema em 28 de fevereiro, Thomé destaca sua expertise: "Já fizemos para Anápolis, já fizemos para Goiânia, já fizemos para Nova Iguaçu, para Volta Redonda. Cheguei a mandar pra você o projeto? Vários lugares já foram feitos, vários já compraram. Isso aí é o serviço da mala-direta". As gravações mostram que o grupo iniciou levantamento para candidatos de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). "Todos, todos, todos. Vou levar os e-mails de todos os eleitores daí. Vou mandar fazer agora", assegura Thomé, num telefonema em 25 de fevereiro.

Dois dias depois, ele pede a um auxiliar que prepare material para mostrar a Silval e Chico Galindo numa viagem ao Mato Grosso. "Como vou estar com o governador dia 18, tira uma cópia do projeto em Nova Iguaçu", orienta. "Indo para lá, eu converso com o prefeito também."

Procurado, Thomé negou ter oferecido o serviço a políticos. Segundo ele, tratava-se apenas de um projeto que não foi adiante. "Era um sonho a realizar. Faltaram meios." Garantiu que nem sequer sabe como rastrear e-mails: "Sou da época da Olivetti (máquina de escrever). Trato o computador como Vossa Excelência. Não tenho intimidade nenhuma". O advogado de Dadá, Leonardo Gagno, disse que nunca conversou com seu cliente sobre o assunto. "Essa coisa de rastrear e-mail não é legal", comentou. O prefeito Chico Galindo e o governador Barbosa não retornaram aos contatos do Estado.

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