Aposentada ora por um milagre

Mulher de 76 anos é o 'precatório 175/02'; decisão saiu em 2001, mas ela ainda não viu a cor do dinheiro

FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h07

Na casinha de fundo de quintal, que nem sua é, Olinda Camillo Pires Vieira trava duas batalhas, aos 76 anos: contra o diabete, o colesterol e o glaucoma e contra as dívidas que acumula.

As doenças ela suporta com medicamentos que retira no posto de saúde do Bom Pastor. Os credores só poderá pagar quando receber seu precatório.

Faz dez anos que Olinda espera por um dinheiro que a Justiça, da primeira até a última instância, sentenciou rigorosamente como direito seu. Na burocracia do Estado, ela virou número, o precatório 175/02.

Em 1996, quando perdeu Oscar Marcondes Vieira, veterano tira da Polícia Civil de São Paulo que um enfarte derrubou, aos 72, Olinda passou a receber pensão no valor equivalente a 75% do contracheque do companheiro.

Foi buscar a diferença nos tribunais. Ganhou, mas ainda não levou, como todos que enfrentam a agonia dos precatórios.

A ordem de pagamento em favor de Olinda, quando expedida, em 2001, estava em R$ 34.387,10. Atualizada para 30 de janeiro último, vai a R$ 110.797,49.

O que fará com esse dinheiro todo, descontados, é claro, os sagrados honorários do causídico Júlio Bonafonte, que com tanto zelo a representa? "Ah, moço, no momento eu não sei o que vou fazer. Primeiro quero pagar o que devo. Comprar minha casa não vai dar mesmo. De modo que eu vou fazer uma viagem para Natal, que eu sei que é bonita porque vi na televisão."

Enquanto o precatório, que tem natureza alimentar, não cai na conta, vai levando a vida na habitação acanhada, de um cômodo só, que é de sua irmã, a quem paga aluguel de R$ 250, mais a conta da água, tem mês que dá R$ 33, tem mês que dá R$ 35.

Mora na rua Muritiba, Vila Floresta, Santo André, onde foi cabeleireira e merendeira.

Da janela do quarto, um pano pendurado é a cortina, contempla os vasinhos de alecrim, orégano, manjericão, hortelã e sálvia - ervas que cultiva e delas tira o tempero para "a comidinha" que prepara.

Quando tem alguma conta para pagar toma o B 51, que a leva até o centro e lá almoça no Bom Prato, a R$ 1.

A pensão vem todo mês com R$ 934,17 a menos - é a parcela de empréstimo que tomou faz alguns anos. "Vai até 2014, não sei bem ao certo."

Tem contas a acertar, coisa de R$ 2,5 mil, com o dono de um imóvel na Praia Grande, onde por uns tempos residiu seu único filho, vendedor desempregado que lhe deu 8 netos de dois casamentos - dois bisnetos Olinda tem.

À noite lhe faz companhia aquela TV Mitsubishi 20 polegadas que "é coisa antiga, nem fabricam mais". Gosta de novela.

Bem mais tarde, antes de adormecer, e também quando desperta, Olinda Camillo Pires Vieira vai ao encontro de São Judas Tadeu, de São José e da Nossa Senhora Aparecida, todos santos de sua devoção, ela diz, e a eles roga por seu precatório.

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