Após repreensão da presidente, Lupi e PDT mudam o tom e se retratam

Repreendido pela presidente Dilma Rousseff por seu excesso de confiança na permanência à frente do Ministério do Trabalho, o ministro Carlos Lupi foi obrigado a se retratar à Presidência e adotar um tom mais humilde em suas declarações. O mal-estar com o Palácio do Planalto foi tanto que o PDT foi obrigado a divulgar, na noite de ontem, nota dizendo que o ministro não teve a intenção de confrontar Dilma. "As declarações do ministro Carlos Lupi não foram de ameaça à presidente Dilma Rousseff ou a quem quer que seja, mas sim um desafio aos acusadores anônimos", diz a nota da sigla.

JOÃO DOMINGOS, TÂNIA MONTEIRO/ BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2011 | 03h04

No fim da manhã de ontem, a ministra Gleisi Hoffman (Casa Civil) transmitiu a Lupi a insatisfação do Planalto com as declarações dadas por ele na terça-feira, logo depois de uma reunião com as bancadas do PDT no Senado e na Câmara. "Duvido que a Dilma me tire. Para me tirar, só abatido à bala", afirmara o ministro na ocasião. Gleisi Hoffmann disse a Lupi que "houve excesso" na fala e "ele e todos os ministros deste governo sabem que quem nomeia e quem demite é a presidenta da República".

O recado foi entendido: "O presidente nacional - licenciado - do PDT e ministro de Estado do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, sabe que cabe à presidente da República, única e exclusivamente, nomear e exonerar, a qualquer período, seus ministros colaboradores", diz a nota do PDT. "Estou desafiando a onda de denuncismo que o Brasil virou. Eu estou desafiando quem macula a honra das pessoas sem direito de defesa. Eu estou desafiando aqueles que mentem. Eu estou desafiando aqueles que usam da mentira como instrumento para acabar com a reputação das pessoas", disse o ministro, por intermédio de sua assessoria de imprensa ontem.

O recado da presidente Dilma a Lupi foi transmitido pela ministra Gleisi pessoalmente, a portas fechadas, no quarto andar do Planalto. Ainda assim, Lupi continua seguro de que não será afastado. Questionado se se sente a bola da vez, respondeu: "Só se for a bola sete, que é a bola que dá a vitória".

O ministro comparece hoje à Câmara para prestar esclarecimentos sobre denúncias de irregularidades em convênios do Trabalho com ONGs de fachada, além da cobrança de propina dessas entidades por parte de seus assessores diretos.

No sábado, depois da publicação de reportagem da revista Veja sobre a suposta cobrança de propina na pasta, Lupi afastou dois assessores. As irregularidades vieram à tona há três meses e acabaram resultando no afastamento do então chefe de gabinete do ministro, Marcelo Panella, amigo e sócio de Carlos Lupi.

Divisão. Três parlamentares do PDT - os deputados Miro Teixeira (RJ), Antonio Reguffe (DF) e o senador Pedro Taques (MT) - pediram à Procuradoria-Geral da República que abra inquérito policial para investigar o ministro. Lupi viu o fogo amigo aumentar ontem. Aos deputados Miro Teixeira, Reguffe e ao senador Pedro Taques juntaram-se três fundadores do PDT, bem mais virulentos. Os ex-deputados Vivaldo Barbosa e José Maurício, ambos do Rio de Janeiro, e Fernando Bandeira, do PDT gaúcho, exigiram a demissão de Lupi e a renúncia dele à presidência do partido. Os três chegaram a fazer uma visita à Controladoria-Geral da União (CGU) para pedir pressa nas investigações.

"O Lupi é um usurpador. Ele dilacerou o partido. Fez do PDT um balcão de negócios. Tem de sair imediatamente", afirmou José Maurício. O ministro não quis comentar as declarações de seus colegas de partido.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.