Após juros, Dilma centra fogo no social

Presidente aproveita Dia das Mães para elevar Bolsa Família e dar verba para novas creches, às vésperas de Brasil sem Miséria fazer 1 ano

VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2012 | 03h06

A presidente Dilma Rousseff quer reajustar o valor dos benefícios do Bolsa Família às vésperas do aniversário de um ano do programa Brasil Sem Miséria, vitrine social do governo. Dilma encomendou estudos sobre o assunto à equipe econômica e ao Ministério do Desenvolvimento Social e poderá anunciar, no dia 14, o aumento para famílias que tiverem filhos de até 6 anos matriculados em creches ou na pré-escola.

É nessa data, logo depois do Dia das Mães, que a presidente divulgará, em cerimônia no Palácio do Planalto, um novo pacote na área social, com repasse de recursos a prefeituras para a construção de creches e uma série de ações destinadas à proteção de crianças de 0 a 6 anos.

O Bolsa Família está incluído no Brasil Sem Miséria - programa que completa um ano no dia 2 de junho - e seu último reajuste ocorreu em março de 2011, quando Dilma esteve em Irecê (BA) e deu aumento médio de 19,4%.

Após adotar o mote da "guerra contra os juros" e mudar o rendimento da poupança, Dilma turbinará programas sociais já existentes, dando a eles nova roupagem. A construção de 6 mil creches até 2014 é promessa de campanha. No ano passado, o plano, ProInfância, foi incluído na segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O governo prevê recursos de R$ 7,6 bilhões, até 2014, para erguer e equipar 6.427 escolas de educação infantil. Até agora, porém, quase nenhum convênio saiu do papel.

Mães. Dilma deve fazer, nesta semana, pronunciamento em homenagem ao Dia das Mães. A fama de "gerente" implacável que combate a corrupção e cuida da economia, aliada à imagem de "mãe dos pobres", é um dos principais fatores para a alta popularidade da presidente, segundo pesquisas que norteiam as ações do Planalto.

Com esse diagnóstico em mãos, nem mesmo a proximidade das eleições municipais e a dura campanha que o PT tem pela frente em São Paulo fizeram com que ela adiasse o anúncio das novas regras da poupança.

Durante reunião do Conselho Político, na quinta-feira, o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), afirmou que os aliados poderiam defender as mudanças com o argumento de que o governo usará o dinheiro proveniente da queda dos juros em programas sociais. Dilma não gostou e reagiu com irritação. "Não é uma coisa que a gente tira daqui e põe ali", esbravejou ela. "Estamos dando o primeiro passo para vencer uma guerra."

Na batalha da comunicação, Dilma pediu a políticos, empresários e sindicalistas cuidado com as palavras. A recomendação para os aliados é a de que nunca digam que o governo "mexeu" na poupança quando se referirem às mudanças na mais popular das aplicações do País. Não sem motivo: o fantasma do confisco no governo Collor, em 1990, ainda ronda o imaginário popular.

Em conversas reservadas, a presidente contesta análises de que tenha mudado a remuneração da poupança agora para desviar o foco da CPI do Cachoeira, como insiste a oposição. Pior: fica furiosa com essas interpretações, alegando que quem diz isso não a conhece. A CPI investiga, no Congresso, as relações do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com políticos e com a construtora Delta, a empreiteira que cuida da maioria das obras do PAC. "A verdade é que Dilma anunciou uma tunga nas cadernetas de poupança. O porto seguro das pequenas economias pagará o pato da 'guerra santa' deflagrada pela presidente, que, pelo jeito, não mostra coragem para mexer no que realmente interessa: tributos e ganhos de bancos", protestou o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR).

Na contraofensiva, o Palácio do Planalto já se prepara para enfrentar as críticas dos adversários, que devem ganhar mais ênfase nessa temporada eleitoral. "Vamos para o debate com a oposição, deixando claro que o governo não está fazendo demagogia e que ninguém rompeu contratos", insistiu o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). O deputado convidou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, para ir ao Congresso, nesta semana, explicar as mudanças na poupança. Antes que Mantega respondesse, Dilma se adiantou: "Ah, o Guidinho vai. Vai sim".

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