Mauricio Garcia de Souza/Alesp
Mauricio Garcia de Souza/Alesp

Após dez mandatos, decano se aposenta e tenta eleger o filho

Antonio Salim Curiati (PP), de 90 anos, ajudará na campanha do filho Antonio Carlos Curiati, do mesmo partido

Fábio Leite, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 05h00

O decano da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) decidiu se aposentar. Após dez mandatos como deputado estadual, o médico Antonio Salim Curiati (PP), de 90 anos, resolveu descansar e abrir espaço para a “renovação” política na Casa. Isso não significa, porém, que o nome Curiati não aparecerá mais no painel de votação depois de 40 anos. Em outubro, ele tentará eleger como “sucessor” um de seus cinco filhos, o empresário Antonio Carlos Curiati (PP). “Ele é aplicado, carinhoso, sabe fazer política e passar a mensagem certa. Vai ter resultado favorável”, disse. 

Colegas do parlamentar na Assembleia disseram que o deputado sempre foi um dos mais assíduos na Casa, marcada por sessões quase sempre esvaziadas. A idade avançada, contudo, dificultou a atuação parlamentar do político, que virou uma figura folclórica do Parlamento, desejando saúde a todos com quem cruza pelos corredores e distribuindo objetos religiosos. Curiati é um dos dez deputados que não vai tentar a reeleição na Assembleia em 2018

https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,em-sao-paulo-90-dos-deputados-vao-participar-das-eleicoes-2018,70002444638

Quando Curiati assumiu seu primeiro mandato na Alesp, em 1967, a sede da Assembleia ainda ficava no Palácio das Indústrias, que hoje abriga o Museu Catavento, no centro da capital paulista – desde 1968 o Parlamento fica no Ibirapuera, na zona sul paulistana.

Faz tanto tempo que Curiati nem se recorda mais quem era o governador à época – Abreu Sodré, da Arena, partido de sustentação do regime militar (1964-1985). “Não era o(Geraldo) Alckmin”, brincou o deputado, que nasceu em Avaré, no interior do Estado, mas fez carreira na capital sendo um dos mais fiéis aliados do deputado federal afastado Paulo Maluf (PP).

Curiati foi secretário de Promoção Social do governo Maluf (1979-1982) e depois indicado por ele para ocupar o mandato-tampão de prefeito da capital entre 1982 e 1983. Em 1991, voltou para a Alesp. Malufista assumido, sempre foi grato ao cacique. Em 2005, foi à carceragem da Polícia Federal em São Paulo levar quibes e quindins para Maluf, que estava preso.

Curiati integrou mais da metade das 18 legislaturas desde a reabertura da Alesp, em 1947, após a ditadura de Getúlio Vargas no Estado Novo (1930-1946). Em 40 anos, apresentou 483 projetos de lei. O primeiro, em março de 1967, para criar a Faculdade de Engenharia de Avaré, cidade onde nasceu. A proposta, porém, não avançou e foi arquivada em 2017.

O último, em dezembro de 2017, para classificar 20 municípios como de interesse turístico – este virou lei em maio deste ano. “Procurei fazer o melhor para população. Agora tenho de ter tranquilidade e dar oportunidade para os outros.”

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Em São Paulo, 90% dos deputados vão às eleições 2018

Tendência aponta para menor renovação de parlamentares da história na Assembleia; em 2014, total de reeleitos chegou a 62

Ana Neira, Matheus Lara e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 05h00

Quase 90% dos deputados estaduais de São Paulo vão concorrer à reeleição ou a uma vaga na Câmara nas eleições 2018. Levantamento feito pelo Estado mostra que 77 parlamentares vão tentar continuar na Assembleia Legislativa de São Paulo, enquanto sete buscam um mandato de deputado federal e outros dez optaram por não participar do processo eleitoral. A quantidade de candidaturas à reeleição indica a possibilidade de que este seja o ano com o menor índice de renovação da história da Alesp, superando 2014, quando 62 deputados foram reeleitos - ou 69,1% da Casa.  

O número de deputados estaduais reeleitos em São Paulo só aumenta desde 1990, quando 20 dos 84 parlamentares da Legislatura anterior foram reconduzidos à Casa. Em 1994, foram 24 reeleitos. Quatro anos mais tarde, quando a Alesp já tinha 94 deputados, o número de reeleitos quase dobrou - foram 44. Em 2002, 47 conseguiram permanecer na Casa; 49 em 2006 e, em 2010, o número de reeleitos chegou a 60. 

“Vivemos um momento de não renovação”, afirma a cientista política Vera Chaia, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Na Assembleia, acontece uma acomodação do parlamentar, já que é mais fácil se reeleger do que se candidatar a outro cargo. É uma segurança para ele, que já tem um cargo eletivo, tem conhecimento da Casa, é reconhecido pelos eleitores”, diz.

Na avaliação do diretor da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), Murilo Gaspardo, o “governismo” é uma prática inerente à Assembleia. “Quem já tem mandato está dentro desta rede, fazendo a intermediação entre prefeitos e governador. Acaba sendo um trunfo eleitoral. Assim, é mais fácil encaminhar-se para uma reeleição”, afirma. 

Após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de impedir que empresas doem para as campanhas, o Congresso Nacional definiu novas regras de financiamento para candidatos. Uma das novidades é o teto de gastos de R$ 1 milhão para campanhas de candidatos a deputado estadual, o que deve enfraquecer novas candidaturas.

“Isso com certeza favorece quem já tem mandato, o que justifica a reeleição. Sem ser conhecido e com pouco dinheiro, fica difícil quebrar a barreira do anonimato”, afirma Marcelo Mingrone, professor do Complexo Educacional FMU. Para ele, um candidato nestas condições e filiado a um partido pequeno dificilmente conseguiria se eleger. “A renovação fica mais distante.”

Gaspardo, da Unesp, aponta que a falta de dinheiro para financiamento das campanhas favorece também as celebridades. No Rio de Janeiro, por exemplo, a cantora de funk MC Carol deve registrar sua candidatura a deputada estadual pelo PCdoB. Nas eleições de 2014, o mesmo partido elegeu a cantora Leci Brandão para um mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo, com 71.136 votos.

“Os famosos costumam contar com autofinanciamento. É bom para ele e para o partido. O fato de ser famoso, por si só, já impulsiona essa candidatura”, diz Gaspardo. Ele também cita candidatos vinculados a igrejas e sindicatos como outros beneficiados na corrida.

Militares

Na mesma lógica, a categoria dos militares também deve levar vantagem, afirma Vera Chaia, da PUC-SP. “Ao lado do religiosos, é o grupo que mais se beneficia porque possui a corporação por trás e são referendados por seus companheiros de farda”, afirma. Estima-se que mais de cem militares das Forças Armadas são pré-candidatos a disputar algum cargo nas eleições.

A deputada Beth Sahão (PT) vê dificuldades para conseguir uma reeleição neste ano por conta da restrição de recursos e do menor tempo de campanha. “Estarei mentindo se disser que será fácil. As mudanças favorecem quem tem dinheiro e causam desequilíbrio na disputa”, diz. A candidata acredita que os deputados estaduais devem ser os mais afetados dentro da estrutura partidária.

Na outra ponta, há uma minoria que preferiu afastar-se da Assembleia. O tucano Celino Cardoso abriu mão da candidatura após seis mandatos consecutivos - entrou na Alesp em 1995, junto com o PSDB no governo do Estado - para se dedicar à vida empresarial. “Foi uma decisão pensada com a família, de que chegou a hora de descansar e cuidar melhor das minhas empresas”, afirma Cardoso, que atua no ramo hoteleiro e da construção civil.

Como é de costume entre caciques políticos, Cardoso tentará fazer um sucessor, no caso, sua ex-chefe de gabinete Sandra Santana, que tentará uma cadeira na Alesp pela primeira vez pelo PSDB. Em 2016, ele já ajudou a eleger a filha Aline Cardoso (PSDB) vereadora da capital - hoje ela é secretária de Trabalho da gestão Bruno Covas. (Colaboraram Fábio Leite e Ana Beatriz Assam)

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