Apoio de Marina pesa pouco, diz Professor

Apoio de Marina pesa pouco, diz Professor

Para Fonseca, professor de Ciência Política da FGV, história mostra que não há transferência de votos,mas militância pode ser decisiva para Dilma

Entrevista com

Francisco Fonseca

Gabriel Manzzano, O Estado de S. Paulo

07 de outubro de 2014 | 03h00

Enquanto PT e PSDB saem a campo pelo apoio de Marina Silva e do PSB, o professor de ensina ciência política na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo Francisco Fonseca faz duas constatações. Primeira, que a transferência de votos de um líder ou partido para outro é quase irrelevante - a experiência anterior mostra isso. Segundo, que a presidente Dilma Rousseff teve 41,5% dos votos e Marina, 21,3%. Ou seja, Dilma precisa de um terço, pouco mais, dos votos dados à rival, para superar os 50% - dado, é claro, que não perca os que recebeu no domingo.

“E não há como negar que as raízes do PSB e de grande parte de sua militância pertencem ao campo da esquerda”, acrescenta Fonseca. Ou seja, a presidente começa a caminhada de três semanas numa situação mais confortável que a do tucano Aécio Neves. Ele não imagina, no entanto, que um novo governo - seja de quem for - altere significativamente o quadro visto até aqui - de muitos partidos, negociações por apoio, concessões na forma de cargos e vantagens.

Os dois vencedores do domingo vão brigar pelo apoio de Marina Silva e do PSB. Qual a real importância desse apoio?

A posição de líderes partidários, nessas situações, tem-se mostrado irrelevante, ou quase isso. Não vejo por que a de Marina seria diferente. Mas há especificidades no caso. Marina não é do PSB, que é um partido mais à esquerda. Boa parte dos militantes da sua Rede Sustentabilidade também são mais próximos da esquerda do que de outros grupos. A proximidade do PSB com o PT é um fato histórico. Não vou dizer que esses votarão majoritariamente em Dilma. Imagino mais uma dispersão do tipo 60% para um, 40% para outro. Se Dilma obteve 41,5% e Marina 21,3% no 1. º turno, basta um terço, pouca coisa mais, de adesão dos marinistas para Dilma chegar à maioria absoluta.

Há uma quantidade de eleitores do PT decepcionados com o partido, que podem não agir dessa forma.

Sim, e é por isso que disse não acreditar em transferência majoritária de votos. Minha conta é de uma parcela menor, mas suficiente.

É a sexta vez que o País vive essa polarização PT-PSDB. Como vê esse fenômeno?

Há um paradoxo na política brasileira. Temos um multipartidarismo forte na política estadual e na municipal convivendo com esse bipartidarismo na disputa presidencial. Por um lado, 32 partidos atuando, 28 agora representados no Congresso. Por outro, os mesmos 2, há 20 anos, disputando o Planalto.

Como arrumar isso?

Fernando Henrique Cardoso tinha 15 partidos em sua coalizão, Dilma tem hoje os mesmos 15. O problema não é a quantidade, é a lei, que determina que os partidos sejam nacionais, assim que criados. 

Em outros países é diferente?

Na Espanha há 4.000 partidos, Nos Estados Unidos, uns 400. Mas são grupos locais, regionais. Para terem atuação mais ampla, precisam antes conquistar cargos nas urnas. Aqui temos siglas que nascem e já recebem espaço na TV, dinheiro do Fundo Partidário, direito a lançar candidato a presidente. Claro que a democracia deve estar aberta à formação de partidos - mas é preciso uma regulamentação séria disso. Como está, os governos precisam dessas legendas para governar, e não é fácil mudar a regra contra eles.

Os números do domingo apontam um fortalecimento do sentimento antipetista em muitos lugares. Por que isso ocorreu?

Acho que o Brasil vem passando por transformações em suas placas tectônicas, na mobilidade social. O governo Lula tirou uma grande quantidade de gente da miséria, criou-se um mercado de consumo novo, formado por esses grupos em ascensão, o crédito ficou fácil. Isso gera uma estranheza entre os grupos de maior renda, que sentem seus espaços invadidos e reagem com esse voto contra o PT.

Contando-se os votos de José Serra, de Aécio Neves, de Beto Richa, no País, há no País tantos ricos assim atingidos?

Aí entra outro fator: essas novas classes médias são conservadoras. Grande parte delas entende que subiu por méritos próprios, não por políticas macroeconômicas, pelo crédito fácil, etc. É gente que diz “eu não sou pobre”. E um terceiro fator do antipetismo, me parece, é o predomínio de uma mídia que tem lado nessa disputa - e que atua contra o PT.

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