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Candidatos à Prefeitura de São Paulo nas eleições 2020. Estadão e Divulgação

Apoio de 'caciques' da política atrapalha candidatos

Ibope mostra que o eventual apoio de líderes políticos a nomes que concorrem à Prefeitura pode ter efeito negativo maior que positivo

Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2020 | 05h00

O eventual apoio de “caciques” da política nacional pode mais atrapalhar do que ajudar alguns candidatos à Prefeitura da capital, segundo os números da pesquisa Ibope/Associação Comercial de São Paulo.

O instituto perguntou aos entrevistados se eles ficariam mais ou menos propensos a votar em candidatos que recebessem o apoio do presidente Jair Bolsonaro, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do governador João Doria e do ex-governador Geraldo Alckmin. Em todos os casos, as respostas negativas superaram as positivas.

Apesar de Bolsonaro ter vencido em São Paulo com folga de 20 pontos porcentuais a disputa presidencial de 2018, agora praticamente metade dos eleitores paulistanos (47%) afirmam que o apoio dele a alguém reduziria sua vontade de votar nessa pessoa. Desse total, 41% afirmam que a vontade diminuiria muito, e 6% que diminuiria um pouco.

Dos integrantes da lista apresentada pelo Ibope, Lula aparece como o cabo eleitoral mais forte. Um terço dos entrevistados (32%) se declaram muito ou pouco inclinados a votar em um candidato a prefeito impulsionado pelo ex-presidente. Mas do outro lado, entre os que rejeitariam dar o voto a um aliado de Lula, o contingente é ainda maior: 40%.

O levantamento do Ibope mostra ainda que a influência positiva de Doria ao manifestar apoio a alguém seria de 16%, enquanto a negativa seria o triplo disso (48%).

No caso de Alckmin, a proporção é a mesma: a taxa de eleitores que rejeitariam o apoio do tucano a um candidato (45%) é o triplo dos que veriam isso como positivo (15%).

Embora não tenha abertamente declarado apoio a Russomanno, Bolsonaro tomou nos últimos dias algumas iniciativas para beneficiar o candidato e apresentador de TV. Partiu do presidente o incentivo para que o PTB o apoiasse, por exemplo.

Apesar de o ex-presidente Lula ter poder de influência sobre 32% do eleitorado da cidade, o candidato do PT, Jilmar Tatto, aparece na primeira pesquisa Ibope após as convenções partidárias com apenas 1% das intenções de voto. Em circunstâncias normais, isso indicaria que Tatto tem potencial para crescer significativamente.

Mas nesta eleição o PT não apresentou o nome mais forte da esquerda: segundo a pesquisa Ibope, esse nome é Guilherme Boulos. O candidato do PSOL tem 8% das preferências. Ele vai buscar se associar ao ex-presidente para cortejar os simpatizantes lulistas.

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Públicos

A influência de Lula é mais rejeitada entre os eleitores de renda maior: no segmento que ganha mais de cinco salários mínimos, quase sete em cada dez afirmam ter resistência a votar em um nome apoiado pelo petista. No caso de Bolsonaro, o segmento que se destaca é o dos eleitores com curso superior: 55% deles dizem que perderiam vontade de votar em um candidato apoiado pelo presidente. O Ibope ouviu 1.001 paulistanos entre os dias 15 e 17 de setembro. A margem de erro é de três pontos porcentuais.

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Ibope mostra Russomanno na frente na eleição para prefeito de São Paulo

Primeira pesquisa feita após a confirmação da lista de candidatos traz o deputado federal com 24% das intenções de voto, seguido pelo prefeito Bruno Covas (18%)

Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2020 | 05h00
Atualizado 09 de outubro de 2020 | 16h41

O deputado federal e apresentador de televisão Celso Russomanno, do partido Republicanos, lidera a primeira pesquisa Ibope feita após a confirmação da lista de candidatos à Prefeitura de São Paulo. Ele tem 24% das intenções de voto, e é seguido pelo atual prefeito, Bruno Covas (PSDB), com 18%. Em terceiro lugar, empatados tecnicamente, aparecem Guilherme Boulos (PSOL), com 8%, e Marcio França (PSB).

Como a margem de erro máxima da pesquisa é de três pontos porcentuais, o Ibope considerou que Russomanno e Covas estão empatados no limite da margem  -  é como se o líder, no pior dos cenários, estivesse com 21%, e o segundo colocado, na melhor das hipóteses, também chegasse a 21%. É extremamente improvável que esse empate de fato exista, porém. Existe uma margem de erro diferente para cada porcentagem das intenções de voto  -  como tanto Russomanno como Covas tiveram pontuações relativamente baixas, a variação máxima de suas taxas para mais ou para menos é inferior a três pontos.

O PT, um dos principais protagonistas das eleições paulistanas desde a redemocratização do País, desta vez estreia na corrida eleitoral paulistana com significativa desvantagem em relação aos líderes. O candidato do partido, Jilmar Tatto, tem apenas 1% das preferências, o mesmo que os “nanicos” Levy Fidelix (PRTB) e Vera Lucia (PSTU).

Eleitos para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa em 2018, na onda do antipetismo, os ex-bolsonaristas, Joice Hasselmann (PSL) e Arthur do Val (do partido Patriota, que se apresenta como “Mamãe Falei”) aparecem com apenas 2%.

O ex-tucano Andrea Matarazzo (PSD), que já comandou a subprefeitura da Sé, na região central da capital, tem 1%, mesma taxa dos estreantes Marina Helou (Rede) e Filipe Sabará (Novo).

Neste início de campanha, há sinais de que os paulistanos estão menos interessados na eleição. Na pesquisa espontânea, aquela em que o entrevistado revela sua escolha antes mesmo de receber um disco de papel com os nomes dos candidatos, nada menos que 56% dos eleitores se declaram indecisos, e outros 22% afirmam que votarão nulo ou em branco. Há quatro anos, na primeira pesquisa Ibope da campanha municipal de 2016, a taxa de indecisos em São Paulo, no levantamento espontâneo, era de 45% - também alta, mas onze pontos porcentuais inferior à atual. 

Na chamada pesquisa estimulada, que registra a escolha do eleitor depois que ele lê a lista de candidatos, a taxa de indecisos é de 10% - mais que o dobro da registrada no início da campanha de 2016.

O levantamento do Ibope, feito a pedido da Associação Comercial de São Paulo e em parceria com o Estadão, mediu também as taxas de rejeição aos candidatos, ao perguntar aos eleitores em quem eles não votariam de jeito nenhum. Nesse caso, Russomanno e Bruno Covas também aparecem como líderes, mas em posições invertidas: o prefeito tem 30% e o deputado, 24%. 

Os demais candidatos, que são menos conhecidos ou tiveram menor visibilidade em meios de comunicação nos últimos meses, têm taxas menores de rejeição. No caso de Boulos, 13% afirmam que não votariam nele em nenhuma hipótese. A possibilidade de voto em Márcio França é descartada por 10%.

Diferenças

Os dois principais concorrentes têm perfis bem distintos de eleitorado. As taxas de intenção de votos em Bruno Covas são maiores nos segmentos de renda mais alta da cidade. No caso de Russomanno, o apoio é maior entre os mais pobres. Ele chega a ter 31% das preferências entre os eleitores com renda familiar de até um salário mínimo.

Na divisão do eleitorado segundo outros critérios sociodemográficos, o apresentador de TV tem melhor desempenho entre os mais jovens, os menos escolarizados e os que se declaram pretos ou pardos. O segmento em que ele colhe seu melhor resultado é o do eleitorado evangélico, no qual chega a 34%, com vantagem de 20 pontos porcentuais sobre o segundo colocado, Covas.

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Até recentemente, Russomanno apresentava o quadro Patrulha do Consumidor em dois programas da TV Record. Ele só se afastou das telas no mês passado, seguindo regras impostas pela legislação eleitoral. O deputado só decidiu se candidatar após o fracasso das negociações para que fosse vice de Covas. O prefeito pretendia ter Russomanno na chapa porque este poderia tirar parte de seus eleitorado.

Bruno Covas, que assumiu o cargo quando o tucano João Doria deixou a Prefeitura para disputar o governo de São Paulo, em 2018, tem 24% das intenções de voto entre os eleitores com renda familiar superior a cinco salários mínimos, e apenas 17% entre os que ganham até um salário. O tucano também tem desempenho acima da média entre os católicos (23%). A faixa do eleitorado mais idoso, com 55 anos ou mais, é a única em que ele está à frente de Russomanno (25% a 18%).

Principal representante da esquerda na campanha, pelo menos até o atual momento, Guilherme Boulos tem desempenho mais fraco nos segmentos de baixa renda. Na parcela que ganha até um salário mínimo, ele tem apenas 2% das intenções de voto. A taxa passa para 5% entre aqueles com renda entre um e dois salários mínimos, e salta para 17% entre os que ganham mais de cinco salários. Na divisão do eleitorado por escolaridade, o candidato do PSOL colhe os melhores resultados entre quem tem curso superior (15%). Entre os que chegaram até o ensino fundamental, ele tem apenas 1%.

Responsável pela contratação da pesquisa, o presidente da Associação Comercial de São Paulo, Alfredo Cotait Neto, chamou a atenção para o fato de que a soma das taxas de indecisos e dos que pretendem votar em branco ou nulo chega a um terço do total. “É um número maior até que o dos dois primeiros colocados na pesquisa”, observou. “É importante que os munícipes de São Paulo prestem mais atenção nas propostas dos candidatos, muitos deles desconhecidos do grande público, para que os eleitores possam exercer sua cidadania com consciência.”

O Ibope ouviu 1.001 paulistanos entre os dias 15 e 17 de setembro. Foi a primeira pesquisa eleitoral com entrevistas presenciais desde o início da pandemia de covid-19.

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Análise: Aliança do presidente pode ficar ruim para ambas as partes

Celso Russomanno larga como favorito, mas não tem bom retrospecto: perdeu todas as eleições majoritárias que disputou

Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2020 | 05h00

Celso Russomanno larga como favorito, mas não tem bom retrospecto. Perdeu todas as eleições majoritárias que disputou, entre elas para o governo do Estado, em 2010. Como candidato a prefeito, essa será a quarta tentativa – já concorreu na capital, nas duas eleições anteriores, e em Santo André, no ano 2000.

O apresentador de TV sempre se beneficiou eleitoralmente do privilégio de interpretar nas telas o papel de herói dos consumidores, mas isso só lhe garantiu sucesso nas disputas para deputado. Nas eleições municipais de 2012 e 2016, apareceu em primeiro lugar nas pesquisas de início de campanha, perdeu terreno ao longo do tempo e nem sequer chegou ao segundo turno.

Depois de mais de duas décadas de carreira como deputado federal, Russomanno parece convencido de que, para administrar a maior cidade do país, não basta se apresentar aos eleitores como justiceiro de supermercado. Como trunfo, ele busca concorrer pela primeira vez com o apoio do Palácio do Planalto. Abandona o disfarce de outsider na política e assume o papel de homem do presidente em São Paulo.

A estratégia funcionou com o tucano João Doria, eleito governador em 2018. Ele e outras dezenas de candidatos ganharam mandatos ao se associar a Jair Bolsonaro – que, na capital paulista, teve seis em cada dez votos. 

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Mas o fato é que presidentes têm pouca influência em eleições municipais, e estas pouco pesam nas disputas nacionais, apesar do que dita o senso comum. Além disso, o desgaste de Bolsonaro na cidade é evidente – como mostra a pesquisa Ibope, seu apoio a um candidato mais tiraria votos do que acrescentaria.

Até recentemente, o presidente aparentava desdenhar das eleições municipais. Parecia convencido de que, ao se envolver, correria riscos desnecessários e teria quase nada a ganhar. Agora, ao dar sinais de alinhamento a Russomanno, ganha holofotes na disputa local. É uma aposta de alto risco. Pode ficar ruim para ambas as partes.

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