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Ao trem pagador

No que depender do pragmatismo de seus aliados, a presidente Dilma Rousseff corre sério risco de acabar ajudando a ex-senadora Marina Silva a construir um cenário bastante compreensível ao senso comum sobre o contraponto entre a velha que vigora e a nova política que vem pregando.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2013 | 02h05

Por enquanto, a união de Marina com Eduardo Campos provocou só efeitos políticos. Nesse ambiente, o lance foi recebido como nada menos que magistral. Faltam, contudo, as consequências eleitorais, no momento, impossíveis de serem previstas, pois reféns das circunstâncias e da tão propagada quanto indispensável combinação com os "russos". Vale dizer, o respeitável público.

Ninguém sabe como reagirá o eleitorado nem tão cedo essa resposta aparecerá nas pesquisas de opinião. Já a reação do baronato do fisiologismo grudado nas glândulas mamárias do governo (qualquer um) já se desenha com a clareza de sempre.

Os partidos que haviam recolhido as armas temporariamente quando a presidente da República recuperou pontos expressivos na popularidade e resolveu amenizar o tom das conversas com eles, depois do anúncio do último sábado começaram a mostrar as garras preparando-se para o que um experiente ator da cena política qualifica como um legítimo "escalpo".

Na falta de cerimônia que lhes é peculiar reivindicam mais espaços no governo, endurecem as exigências para alianças e providenciam as facas para espetar o pescoço da presidente. A maior ou menor pressão, o sucesso ou fracasso da empreitada vão depender do resultado da combinação com os russos referida acima.

Se a aliança entre Campos e Marina der sinais de prosperidade eleitoral a rapaziada que sente esse tipo de aroma de longe vai exigir mundos e fundos (principalmente fundos) - não necessariamente com a intenção de entregar o prometido apoio - e o governo não terá saída a não ser ceder. Nesta hipótese, em nada remota, Dilma ficará diante do eleitorado com o ônus da face mais carcomida da política.

Duplex. Lula e Dilma não fazem uma dobradinha na linha dois em um? Então, Campos e Marina adotarão modelo parecido, que ficará demonstrado no modelo do programa do PSB que irá hoje ao ar.

Até agora só o PT contava com essa dupla militância em prol de uma candidatura, agregando forças dos setores mais pobres aos de classe média.

O PSB entra em campo com o governador falando a linguagem da administração eficiente, sensível ao empresariado, e a ex-senadora fazendo o discurso do bom combate para a modernização da política, tão caro às ruas.

O PSDB perdeu a oportunidade de fazer algo semelhante em 2010 quando não levou adiante a ideia da chapa puro-sangue entre José Serra e Aécio Neves.

Consultivo. O governador Eduardo Campos tem ouvido de amigos e aliados ponderações para que deixe de lado a discrição dos últimos meses e aproveite o momento para circular, falar e se dar a conhecer ao grande público.

Se não se mostrar, ponderam, não haverá aliança que o faça subir nas pesquisas.

Outro conselho que vem recebendo: preservar o pacto de não agressão com Aécio Neves e investir na construção de coligações com os tucanos nos Estados a fim de retirar palanques do governo.

Painho. Se a Venezuela é um país onde há até "excesso" de democracia, como disse uma vez Lula da Silva, se o projeto de poder do falecido Hugo Chávez é visto como símbolo de justiça social, do que reclamam os petistas quando Marina Silva se refere ao "chavismo" do partido?

A coerência aconselharia a tomarem a expressão como elogio.

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