Eraldo Peres/AP Photo
Eraldo Peres/AP Photo

Vera Rosa: Um 'capitão do povo' que embrulha o estômago com a Constituição

Apesar dos acenos para o 'povo', os vestígios de autoritarismo marcaram presença na fala do presidente

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2022 | 14h45
Atualizado 27 de março de 2022 | 20h11

BRASÍLIA - Foi um ato de campanha, sem tirar nem pôr. Embora repaginado como “Movimento Filia Brasil” para driblar a lei eleitoral, o encontro do PL, partido do presidente Jair Bolsonaro, exibiu neste domingo, 27, um dos principais slogans da propaganda pela reeleição. Agora, Bolsonaro se apresenta como "o capitão do povo” e fala em “um exército”, composto por homens e mulheres, não destacando mais somente o “seu” Exército como instituição.

Apesar de todos os acenos para o “povo”, Bolsonaro estreou esta nova temporada com um discurso preocupante ao dizer que às vezes lhe “embrulha o estômago” ter de jogar dentro das “quatro linhas” da Constituição.

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entenderam o recado como uma nova ameaça diante de tantos embates. O fato, porém, é que Bolsonaro tem ressuscitado a defesa do voto impresso – proposta já rejeitada pela Câmara –, sob o argumento de que há uma “conspiração” para tirá-lo do cargo. Nessa toada, vira e mexe semeia desconfiança no sistema eleitoral.

O discurso da vez é o de que existe uma “luta do bem contra o mal”, que ultrapassa o embate entre esquerda e direita. Com esse maniqueísmo, Bolsonaro procura dissipar resistências em faixas do eleitorado nas quais o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu maior adversário, está muito à frente. Faz acenos a mulheres e a jovens – faixa do eleitorado na qual enfrenta grande rejeição –, mas, ao mesmo tempo, elogia o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. De quebra, tenta fisgar eleitores que desistiram do ex-juiz Sérgio Moro (Podemos), em dificuldades na campanha.

Vestido com colete à prova de balas, no palco do Centro de Convenções Internacional do Brasil, o presidente já havia dito que faria neste domingo o pré-lançamento de candidatura à reeleição. Contrariou o próprio PL, que na última hora tentou “reformular” o ato para escapar de punição, uma vez que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proíbe propaganda de candidatos agora.

A tônica dos discursos no Centro de Convenções não deixou dúvidas da campanha antecipada, embora no mesmo dia o ministro do TSE Raul Araújo tenha acolhido pedido do PL ao considerar que as cantoras Pablo Vittar e Marina fizeram propaganda eleitoral no festival Lollapalooza.

"O nosso inimigo não é externo, é interno. Não é luta da esquerda contra a direita. É luta do bem contra o mal”, disse Bolsonaro. “Uma pesquisa mentirosa publicada mil vezes não fará um presidente da República”, emendou ele, numa referência à liderança de Lula.

A plateia gritava “Mito, mito”. Muitos vestiam verde-amarelo, bonés com a inscrição “Ele Sim” – em contraposição ao “Ele Não” da campanha de 2018 – e havia gente enrolada na bandeira do Brasil. Ali, máscara de proteção à covid era coisa rara.

O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), não cantarolou mais “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, como fez em 2018. Naquela época, Heleno trocou a palavra “ladrão” da música de Zeca Pagodinho por “Centrão”. Mas, como esse bloco de partidos – integrado por Progressistas, PL e Republicanos – não apenas apoia o governo como dá sustentação à campanha bolsonarista pelo segundo mandato, as coisas mudaram de figura.

Diante de Valdemar Costa Neto, presidente do PL e um dos expoentes do Centrão, Heleno pegou desta vez o microfone para dizer que a segurança institucional “foi ofendida e jogada pela janela” várias vezes. “Vamos aguardar o fim desse filme que, tenho certeza, será glorioso”, afirmou o general. O senador Fernando Collor (Pros-AL), outro aliado, observava atentamente.

E assim, dizendo ter nas mãos uma “missão espinhenta”, Bolsonaro protagonizou um ato no qual até uma “batalha espiritual” entrou em cena, na voz de Cuiabano Lima, o locutor de rodeios e mestre de cerimônias do encontro.

O presidente não fez um discurso forte, mas deixou um clima de apreensão no ambiente. No fim, embora tenha repetido expressões surradas – como “aqui não tem vermelho; tem verde-amarelo” –, mostrou que o duelo com Lula terá capítulos de tudo ou nada na novela do “bem contra o mal”. Mas quem quer saber desse maniqueísmo?

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