Ao elogiar Marta, Lula volta a atacar 'elite'

Padrinho da candidatura de Haddad, ex-presidente defendeu gestão da senadora

FERNANDO GALLO, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2012 | 03h01

Prestes a entrar publicamente com força na pré-campanha do ex-ministro Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo para tentar convencer o eleitorado da cidade a eleger pela primeira vez um candidato notadamente seu, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva atacou ontem a elite paulista em homenagem na qual recebeu, na Câmara Municipal, o título de cidadão paulistano.

"Tentar fazer um CEU (Centro Educacional Unificado) para colocar uma criança de favela dentro não é aceitável por uma parte da elite paulista. Mas não é mesmo! Mesmo que você não esteja tirando dela, ela não quer que o outro seja pelo menos igual a ela", afirmou o ex-presidente, em um momento em que o PT avalia ter condições de romper a histórica rejeição da classe média ao partido na cidade. "É um preconceito secular, uma coisa enraizada na cabeça de algumas pessoas".

Em seu discurso, Lula se dirigiu à senadora Marta Suplicy (PT-SP), a quem pressionou para que desistisse da postulação à Prefeitura ainda nas prévias do partido, e afirmou que ela foi "a maior vítima do preconceito de parte da elite de São Paulo porque ousou governar para os pobres da cidade". Cerca de duas mil pessoas acompanharam o discurso de Lula na Câmara, segundo a Polícia Militar.

O ex-presidente também disse ter sido vítima do mesmo preconceito. "Eu tive que provar que nordestino não veio para São Paulo apenas para ser pedreiro. Porque eles costumavam dizer 'ah, o nordestino é fantástico, vai para São Paulo e faz ponte, faz prédio, faz viaduto'. Como se na nossa cara estivesse escrito 'pedreiro' ou 'ajudante'. Por que não ser engenheiro, médico, presidente da República?"

Ao contrário do que muitos petistas esperavam, Lula fez apenas uma menção a Fernando Haddad, a quem classificou, em sua saudação inicial, como "o melhor ministro da Educação que o Brasil já teve".

Marta. Quem causou constrangimento no PT com seu discurso foi Marta Suplicy, que, ao falar sobre a necessidade de inovação e renovação em São Paulo, afirmou: "Não basta o novo nessa cidade. Temos de ter um programa novo". No momento em que o PT apresenta Haddad como novidade - as inserções de TV e rádio que o partido levou ao ar na semana passada traziam o mote da renovação -, os petistas presentes à Câmara se indagavam se a fala embutia algum cutucão à Haddad ou à pré-campanha.

O pré-candidato, por sua vez, tentou contemporizar: "Estamos há três meses elaborando um programa exatamente para isso. Essa gestão é muito pouco inovadora. A nossa gestão foi muito mais inovadora, e por isso tive a honra de participar da gestão da Marta".

Barba. Ainda em recuperação do tratamento do câncer, Lula brincou ao ver no plenário uma foto em que ostentava barba, sua marca registrada. "Eu tô vendo aquela foto e pensando: 'eu já fui bonito e não sabia'. Não sabia que a barba pesava tanto na minha beleza", disse, arrancando gargalhadas da plateia. "Vou dar um jeito dela voltar a crescer".

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