Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Antes da proibição legal, Roger Waters projeta 'ele não' em Curitiba

Justiça Eleitoral havia alertado o cantor britânico sobre proibição de manifestação política-eleitoral nas vésperas do pleito no Brasil

Katna Baran, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2018 | 23h15

CURITIBA - O cantor britânico Roger Waters voltou a se manifestar politicamente em seu show em Curitiba, na noite deste sábado, 27. Pouco antes das 22h, foi projetado um texto no telão explicando que a produção do show foi alertada pela Justiça Eleitoral sobre a legislação brasileira, que não permite manifestações políticas após esse horário na véspera do pleito.

"São 21:58 e nos disseram que depois das 22h não podemos falar sobre eleições. É lei", dizia o texto. Depois, outra tela foi projetada com os dizeres: "Essa é nossa última chance de resistir ao fascismo antes de domingo". E depois: "ele não", em referência aos protestos contra o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL).

Depois disso, o telão avisou que ainda faltavam 30 segundos para a possibilidade de manifestação política antes da restrição legal. Às 22h, o telão alertou: "São 22h. Obedeçam a lei". As frases causaram mais vaias que aplausos do público na capital paranaense. Alguns grupos entoaram "ele não", enquanto outros gritavam "mito". Outros presentes chegaram a gritar "fuck you" para o artista. Depois, em uma fala, o cantor disse em inglês “I love you too” (eu amo vocês também) e afirmou que este se tratava de um espetáculo de "amor".

Após cantar a música “Another brick on the wall” com a participação de crianças curitibanas, houve um intervalo no show, momento em que foram projetadas várias frases de protesto no telão, remetendo à “resistência” a várias formas de violência, como a discriminação religiosa e étnica, o abuso policial, as oligarquias globais, a escravidão e as guerras. A plateia entoou em alguns momentos “ele não” e, logo após, outro grupo mais forte gritou “fora PT” e “mito”.

O show na capital paranaense foi realizado no estádio Couto Pereira, do Coritiba, e teve 41.480 ingressos vendidos. Na sexta-feira, 26, a Justiça Eleitoral do Paraná mandou advertir a produção do show do cantor para as restrições de manifestações políticas-eleitorais que ocorrem a partir das 22h do dia que antecede as eleições, no domingo, 28. A decisão do juiz eleitoral Douglas Marcel Peres tem como base um pedido do Ministério Público Eleitoral. 

O magistrado observou que a lei eleitoral brasileira traz restrições para “o livre e ilimitado exercício de manifestação” no dia anterior e na data do pleito. “(Entre 22h e) meia-noite (de sábado), há uma restrição para manifestação pública em prol ou contra candidatos a cargos eletivos, transgressão essa sujeita a multa”, escreveu. Ele alertou que, após 0h de domingo, qualquer manifestação política pode configurar boca de urna, sujeita à prisão. 

Depois de questionada sobre a notificação de outros eventos, a assessoria do TRE informou que outro show que ocorreu em Curitiba na noite deste sábado, o da cantora Alcione, também foi notificado sobre a restrição da legislação eleitoral. Poucas horas antes do show em Curitiba, ela manifestou pelas redes sociais voto em Fernando Haddad (PT) no segundo turno. 

As mensagens de resistência foram iguais às apresentadas em shows anteriores de Waters e citavam o anti-semitismo e ao neo-fascismo em referência a nomes de alguns políticos como Vladimir Putin, Donald Trump e Marine Le Pen. No último nome, havia uma tarja preta, que em espetáculos anteriores trazia o nome de Bolsonaro. Outra frase projetada também pedia resistência àqueles que “premiam a tortura”.

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