Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Análise: Um debate indeciso em um cenário de incertezas

Debatedores tiveram performances irregulares, sem linha de discurso definida

Kleber Carrilho*, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2018 | 05h00

Nunca um debate para a Presidência se deu em um ambiente tão instável: os dois atores com maior intenção de voto, Lula (já não mais candidato) e Bolsonaro (na UTI, depois do atentado), não estavam lá. Por isso, sobrou para os outros candidatos tentarem se posicionar para herdar os votos do petista ou aproveitar a ausência do capitão e ganhar com o discurso contra a violência.

Sem dados de pesquisa, faltaram às equipes de comunicação as informações necessárias para dar aos candidatos papéis claros para atuar. A não ser no caso de Guilherme Boulos, que continua com a mesma forma “contra todos”, os outros debatedores tiveram performances irregulares, sem linha de discurso definida.

Marina Silva começou tímida, sem poder aproveitar o papel de anti-Bolsonaro que tinha assumido no último encontro entre os candidatos. A partir do terceiro bloco, conseguiu aproveitar a aparição na tela para ironizar com caras e bocas as respostas tecnicistas de Alckmin e conseguiu deixar claro, no final, quem vai tentar conquistar: o voto feminino.

Ciro Gomes, embora com firmeza e alguma clareza no discurso, demonstrou novamente que se complica no desenvolvimento dos argumentos ao se dizer contra a corrupção, mas sem poder atacar diretamente Lula, de olho na herança dos votos petistas.

A tentativa de polarização entre Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles mostrou que os estrategistas enxergam claramente que os dois disputam os mesmos eleitores. Meirelles, com a intenção de desestabilizar Alckmin no início, relembrou as peças publicitárias do tucano em que há críticas a Bolsonaro, tentando assim levar a ele parte da responsabilidade da polarização no país. A ideia poderia funcionar se tivesse sido levada por Boulos, por exemplo. Na boca de Meirelles, pareceu puramente oportunismo para desconstruir o adversário.

Alvaro Dias, novamente, demonstrou que, além do slogan, não consegue desenvolver algum discurso que traga um posicionamento estratégico claro, chegando ao ponto de não conseguir desenvolver uma discussão nem mesmo com o psolista, ao falar sobre bancos.

Em um momento em que a decisão de voto parece ainda não consolidada para grande parte dos eleitores, ganhou quem conseguiu estimulá-los a adiar a escolha. Afinal, ela não vai mesmo acontecer agora.

*Doutor em Comunicação e professor da Universidade Metodista de São Paulo

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