ANÁLISE: na hora mais certa

Na crueza da política real, a esperteza e o pragmatismo são mãe e pai de toda adesão e de qualquer rompimento. O cálculo é simples: levar vantagem sempre, perder nunca; quando inevitável, minimizar prejuízos. A precipitação é o maior dos pecados, pois implica no irremediável das oportunidades perdidas. Não se age por impulso, não se escolhe antes - nem depois. O profissional vai na boa, na hora mais certa, no timing perfeito. Visão no futuro, dissimulação e nervos de aço; o mantra das raposas.

Carlos Melo,

29 de julho de 2013 | 02h09

Por isso é que, a mais de um ano da eleição, dificilmente os partidos da base aliada à presidente Dilma Rousseff se precipitarão em romper com seu governo. Dilma caiu, as pesquisas mostram; sua situação tornou-se mais que delicada e a reeleição já não é favas contadas. Mas, não foi tanto que mais uma reviravolta inesperada não a faça levantar. Na política - mais que em qualquer atividade -, milagres acontecem. Ademais, há ainda um terço de mandato e tudo o que a máquina pode facilitar.

Rejeitar Dilma desde já seria amadorismo. Por que fazê-lo agora se as circunstâncias ainda não se definiram? Afora que há vantagem em ser solidário a um governo aflito. Claro, ninguém se deixará abraçar pelo afogado. Mas ainda não é o caso; o melhor mesmo é operar a ambiguidade. Se dividir em apostas distintas; esperar que o vencedor, mais adiante, resgate os vencidos. Nem oito, nem oitenta; nem direita, nem esquerda. Somente a ética da convicção pragmática.

O PSD de Gilberto Kassab sabe disso - o PMDB também. É cedo para dar Dilma por finada. No mais, há Lula na retaguarda e, assim como tudo mudou, tudo pode mudar novamente. A negação da negação; ou uma volta de 360 graus ao final. A conjuntura volátil; coisa de vaca estranhar bezerro: melhor ganhar tempo. A um ano da eleição, a canção ainda começa assim: "Não, não se afobe não, que nada é pra já!".

* CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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