Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Análise: Meirelles serve de biombo para proteger Temer de ataques

Com 1% nas pesquisas, ex-ministro assumirá a difícil tarefa de se equilibrar entre a rejeição de Temer e colar sua imagem a Lula

Vera Rosa e Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2018 | 14h38

A candidatura de Henrique Meirelles (MDB) ao Palácio do Planalto nas eleições 2018 serve como uma espécie de biombo para o presidente Michel Temer. Embora a estratégia da campanha seja repetir que o ex-ministro da Fazenda não é resultado do governo Temer, na tentativa de se descolar da imensa impopularidade do presidente, na prática o candidato servirá para “matar no peito” todos os ataques dirigidos ao antigo chefe.

Com 1% das intenções de voto, Meirelles assumirá a difícil tarefa de se equilibrar entre a rejeição de Temer e colar sua imagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que, apesar de preso da Lava Jato, ainda lidera as pesquisas. Não é à toa que o ex-ministro sempre lembra que foi presidente do Banco Central nos dois mandatos de Lula.

“O mundo para mim não se divide entre quem gosta de Lula de um lado e quem não gosta; entre quem gosta do presidente Temer e quem não gosta”, discursou Meirelles na convenção. “O mundo se divide entre quem trabalha e quem não trabalha."

O ex-ministro propôs um “pacto de confiança”,  embora não tenha nem mesmo dentro da legenda a garantia de que não será abandonado na disputa. Muitos dos seus pares o vêem com desconfiança e ceticismo, mas aceitaram a candidatura porque ele dispõe de recursos próprios para bancar a campanha, deixando a maior fatia dos R$ 234 milhões que o MDB tem no Fundo Eleitoral à disposição dos concorrentes à Câmara e ao Senado.

Nos bastidores, caciques do MDB indicam que o partido agirá como sempre agiu. Pragmático, vai se aliar nos Estados com quem estiver melhor posicionado nas pesquisas no decorrer da campanha. “Não vamos enquadrar ninguém. Apoio não se obriga, se conquista”, disse o presidente do MDB, senador Romero Jucá (RR). “Já foi uma grande façanha Meirelles conseguir ser candidato. Em 2006, o Garotinho era muito popular e perdeu a convenção”, afirmou o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, em uma referência a Anthony Garotinho.

Mesmo no Palácio do Planalto, a avaliação é a de que o segundo turno da eleição deverá ser entre um candidato do PT e um nome de centro-direita. Em conversas reservadas, emedebistas admitem, porém, que a chance de esse nome ser Meirelles é próxima a zero.

Para o MDB, se o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) chegar à segunda rodada, o jogo será mais fácil. Nos últimos dias, ao ameaçar tirar ministérios comandados por partidos do Centrão, como o PP – que controla Saúde, Cidades e Agricultura ­­--, o Planalto abriu caminho para o bloco fechar com Alckmin e isolou Ciro Gomes (PDT), que chamou Temer de “quadrilheiro”.

A portas fechadas, até aliados dizem que o MDB, conhecido por ocupar cargos em todos os governos, não tardará a trocar apoio ao próximo presidente por espaços na administração. Em Brasília, há uma máxima repetida à exaustão: ninguém governa sem o MDB.  

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