Análise: Lula ampliou e limitou o potencial do candidato petista

Cúpula petista insistiu num caminho que, se foi bem-sucedido em levar Haddad ao 2º turno, também foi responsável por elevar rejeição

Marco Antonio Teixeira*, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2018 | 05h00

Fernando Haddad chega ao fim do segundo turno em dificuldades, mas em condições de competição bem melhores do que quando essa reta final foi iniciada. Alguns erros cometidos no decorrer de todo o primeiro turno acabaram sendo cruciais para, de um lado, limitar seu potencial de crescimento e aumentar sua rejeição, e de outro contribuir para uma maior aceitação da candidatura Jair Bolsonaro.

O grande erro da campanha petista decorreu da excessiva demora em confirmar Fernando Haddad como candidato a presidente da República. Ao levar até o limite do impossível o nome de Luiz Inácio Lula da Silva, o PT perdeu o timing da disputa, viu seus adversários monopolizarem o acesso aos debates entre os candidatos e os programas de rádio e TV, e acabou tardiamente construindo alianças de maneira ruidosa que tiveram impacto negativo sobre as articulações para o segundo turno. Basta lembrar que o acordo com o PSB e a vinda do PC do B para a chapa petista provocaram um profundo mal-estar com Ciro Gomes e racharam o PT em Pernambuco.

Outro fator de desgaste para a campanha de Haddad foram as sucessivas visitas a Lula em Curitiba. Se por um lado tais encontros deram mais visibilidade ao apoio do ex-presidente, serviram para alimentar uma estratégia adotada por adversários para desgastá-lo: disseminar a ideia de que Haddad, se eleito, não seria de fato o presidente e sim um preposto que governaria segundo os desígnios de Lula. Somam-se ainda como fatores de desgaste as declarações de líderes petistas acerca de um suposto indulto presidencial e a fala de José Dirceu, uma semana antes do primeiro turno, de que “o PT tomar o poder” seria uma questão de tempo.

Por mais que Haddad não pudesse abrir mão de vincular sua imagem com a de Lula para obter transferência de votos e chegar ao segundo turno, a dose da vinculação foi excessiva. A cúpula petista insistiu num caminho que, se foi bem-sucedido em levá-lo ao segundo turno, também foi responsável por elevar sua rejeição a níveis que acabaram limitando seu potencial de voto.

Haddad chega ao dia D com a remota possibilidade de surpreender e se tornar Presidente da República. Isso só foi possível quando ele assumiu o papel de protagonista de sua própria campanha. Ou seja, seu crescimento decorreu da percepção de que Haddad é o Fernando Haddad que foi ministro da Educação e prefeito de São Paulo. Isso é muito diferente e bem mais abrangente do que ter se limitado a se apresentar como herdeiro da candidatura Lula.

* É PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA FGV-SP

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