ANÁLISE: Domínio familiar da política é tradição que vem de Portugal

 Vem da tradição portuguesa: famílias sempre monopolizaram cargos públicos, loteando-os entre parentes e apaniguados. No século 15, uma família de origem espanhola, os Lucenas, aparece no topo da burocracia portuguesa: Rodrigo de Lucena sucede a um parente, Afonso Madeira, no cargo de físico-mor do reino (ministro da saúde e médico do rei). Seus descendentes serão desembargadores e altos funcionários da coroa, até o século 17, quando Francisco de Lucena, secretário de estado de D. João 4º ( espécie de primeiro ministro), foi, em 1643, decapitado em praça pública acusado de traição.

Francisco Antonio Doria, O Estado de S. Paulo

20 de setembro de 2014 | 21h00

No Brasil, o nepotismo vem do século 16. A alcaidaria-mor de Salvador (o alcaide-mor era um prefeito com funções militares) fica praticamente hereditária na família Moniz Barreto nos séculos 16 e 17. Assim também a alcaidaria-mor de Olinda, em Pernambuco, onde se sucediam membros da família Moura Accioli nos séculos 17 e 18. As câmaras de vereadores eram também monopolizadas por grupos familiares de prestígio: no século 17 cerca de dez famílias se sucedem no controle da câmara de Salvador; no século 18 mudam as famílias, mas permanece o sistema de controle. Mesmo a primeira câmara republicana de Salvador possui três vereadores parentes perto e de mesmo nome (Doria). 

Assim, a linha que une Tancredo a Aécio Neves nada tem de original: é parte da tradição brasileira.

* FRANCISCO ANTONIO DORIA É PROFESSOR EMÉRITO DA UFRJ E AUTOR DE 'OS HERDEIROS DO PODER'

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