GABRIELA BILO/ ESTADAO
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Análise: Disputa pesa no Congresso

Ganha terreno a direita tradicional, da “velha política”, que em parte se aliou a Bolsonaro no Centrão, mas não a ponto de se sacrificar por ele

Cláudio Couto*, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Desde a redemocratização, Jair Bolsonaro é, com Itamar Franco em 1992, o único presidente sem partido durante eleições municipais. Sarney teve o PMDB em 1985 e 1988; Fernando Henrique Cardoso viu se multiplicarem prefeitos e vereadores do PSDB em 1996 e 2000; Lula viu o mesmo com o PT em 2004 e 2008; finalmente, com Dilma o PT ganhou capitais (dentre elas, São Paulo) em 2012 e definhou no ano de seu impeachment, 2016 - quando perdeu cerca de 60% de seus prefeitos e vereadores, além de ser varrido das capitais e grandes cidades.

Em tais disputas, o ocupante do Planalto é personagem indireto, porém importante, dos pleitos municipais. O eleitor vota mirando questões locais (buraco da rua, enchente, transporte, unidade de saúde, escola infantil...), mas a força organizacional de sua agremiação é reforçada por estar no governo, normalmente beneficiando o desempenho eleitoral, como com FHC e Lula. Porém, se o presidente vai mal, seu partido se ressente, como ocorreu com Sarney em 1988 e Dilma em 2016.

Hoje, Bolsonaro não tem partido porque assim o quis. Como se fosse a Amazônia ou o Cerrado, devastou sua relação com o PSL, legenda pela qual se elegeu e que, depois, deixou. A agremiação tem o maior quinhão do fundo eleitoral, mas isso pouco tem servido, pois rateia nas disputas locais. Tentou criar o Aliança pelo Brasil, mas fracassou. Agora, com filhos no Republicanos, apoia seus candidatos a prefeito em São Paulo e Rio de Janeiro, mas ambos patinam. 

O mesmo ocorre com a maioria dos candidatos a prefeito identificados com o bolsonarismo. Ganha terreno a direita tradicional, da “velha política”, que em parte se aliou a Bolsonaro no Centrão, mas não a ponto de se sacrificar por ele.

Eleições municipais importam para a disputa nacional subsequente. Não por anteciparem o que virá, mas porque a rede política formada por prefeitos e vereadores pesa na disputa para o Congresso Nacional dois anos depois. Sem partido, Bolsonaro não terá isso; tem dois anos para resolver o problema.

* PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA FGV EAESP E PRODUTOR DO CANAL DO YOUTUBE "FORA DA POLÍTICA NÃO HÁ SALVAÇÃO" 

 

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