ANÁLISE: Cultura política brasileira é baseada em patrimonialismo e personalismo

Eleitores ainda acham que vale a pena votar em candidatos ficha-suja pelos benefícios que podem receber através de políticas públicas específicas ou até mesmo indicações de cargos públicos

Maurício Fronzaglia, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2018 | 17h00

Após tantos protestos pedindo o fim da corrupção, chegou-se a imaginar que não mais haveria espaço na eleição para a atuação dos chamados políticos ficha-suja. Contudo, muitos deles são candidatos a cargos legislativos e executivos e alguns têm chances reais de serem eleitos ou reeleitos. Isso não é uma novidade na vida e na cultura política nacional. A mesma impressão equivocada aconteceu logo após o impeachment do ex-presidente Fernando Collor.

Durante décadas, o lema “rouba mas faz” foi a justificativa para o voto e para os atos de muitos políticos. Não é de causar surpresa a quantidade de candidatos a governador que tenham pendências diversas com a justiça. A questão a ser colocada é: por que tais candidatos continuam a receber parcelas de voto substantivas dos eleitores? Há muitas explicações possíveis. As mais simplistas diriam que os eleitores não se informam de maneira adequada e, por isso, são facilmente enganados, ou que não enxergam na corrupção um desvio tão grave desde que não se sintam afetados.

Outro argumento se basearia em duas características da nossa cultura política: o patrimonialismo e o personalismo. O patrimonialismo é a não-distinção das esferas públicas e privadas, o que levaria ao uso do patrimônio público (serviços e concessões) para fins privados como o benefício de amigos, familiares ou a clientela política com quem se tem laços pessoais.

Daí vem também o personalismo, com a distribuição de cargos e benesses. Dessa forma, a resposta é que, após ponderar os pontos positivos e negativos, os eleitores ainda acham que vale a pena votar em tais candidatos pelos benefícios que podem receber através de políticas públicas específicas ou até mesmo indicações de cargos públicos.

As mudanças necessárias para alterar o atual cenário não têm se efetivado apenas com instrumentos jurídicos como a Lei da Ficha Limpa. Precisamos fortalecer entre nós os costumes e valores da igualdade democrática, ou seja, de que ninguém está acima da lei , e os valores republicanos, para que os políticos eleitos tenham obrigação de servir o público que os elegeu.

*É doutor em ciência política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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