ANÁLISE: Candidatos precisam mudar para ampliar votação no Rio

A soma de abstenção, votos nulos e brancos, de 42,5% agora pode chegar perto dos 50% com a polarização entre Crivella e Freixo

Bernardo Sorj, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2016 | 05h00

O Rio teve o maior índice de abstenção (24,2%) entre as capitais. No segundo turno, deverá bater um recorde histórico. A soma de abstenção, votos nulos e brancos, de 42,5%, pode chegar perto dos 50%. A explicação é que essa opção Marcelo Freixo x Marcelo Crivella deixou muita gente insatisfeita.

Quais são os elementos desconhecidos deste segundo turno? Um deles é que Freixo tinha apenas 11 segundos na propaganda da TV e agora dividirá com Crivella o mesmo tempo de dez minutos diários. Como o PSOL aproveitará o tempo alto na TV que conquistou pela primeira vez?

O segundo ponto é a transferência de votos dos candidatos derrotados. Duvido que eles tenham capacidade de dizer aos eleitores em quem votar. A exceção são alguns currais eleitorais influenciados por milícias, que não têm nenhuma simpatia por Freixo.

A capacidade de Crivella obter os votos de Flávio Bolsonaro, candidato do PSC, que tem um eleitorado ligado à área de segurança pública, é grande. A impressão geral, no entanto, é de que, para a classe média carioca não ligada à esquerda, o vínculo do candidato do PRB com a Igreja Universal do Reino de Deus é um problema enorme. O sentimento entre eleitores de Indio da Costa (PSD), Pedro Paulo (PMDB) e Carlos Roberto Osório (PSDB) é de frustração. Imagino que parte desse eleitorado vá optar pelo voto branco ou nulo, ou pela abstenção.

A questão central para Freixo é se terá capacidade de convencer a classe média de que é um candidato moderado, embora à esquerda. Mesmo sendo um direito seu, Freixo não deverá ter discurso estritamente ideológico. Ele tem a oportunidade histórica de fazer um discurso mais centrado na cidade, com menos retórica e mais propostas concretas.

Do lado do candidato do PRB, personagem que estava muito associado à Igreja Universal, a pergunta é: Crivella mudou? Quanto mudou? O senador chamou setores seculares e da esquerda para ajudá-lo, mas ainda terá de mostrar o quanto esse novo Crivella é diferente do velho.

Outra questão é que o Rio tem um elemento forte de lutas culturais e, nesse ponto, o segundo turno terá um confronto entre candidatos opostos em relação a direitos reprodutivos, sexualidade, drogas. O candidato que representa os valores mais modernos está ligado a um partido com o qual muita gente mais moderna não se identifica, até pelo fato de que o PSOL ainda é muito associado ao PT. Os dois candidatos devem mudar. Freixo deve passar de um discurso ideológico para aquele centrado na cidade. Crivella precisa ganhar a confiança dos que duvidam de suas credenciais. Pela estrutura da cidade, por alguns currais eleitorais, Crivella deverá ter mais força.

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