Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Análise: Candidatos mostram suas visões para São Paulo, mas deixam pandemia de lado

No debate, faltaram propostas sobre como retomar a economia e como reestruturar os serviços de saúde abalados pela crise do coronavírus

Gabriela Lotta*, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 14h52

Na reta final das eleições municipais, o debate entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo realizado pelo Estadão serviu como um bom espaço para os postulantes mostrarem suas identidades e se diferenciarem a partir da defesa de políticas para a cidade. Embora parte do debate tenha sido desperdiçado com discussões infrutíferas e agressivas - principalmente as que testemunhamos entre Celso Russomanno (Republicanos) e Arthur Do Val (Patriota) -, os candidatos usaram boa parte do tempo para apresentar ao eleitor experiências, propostas e visões para a cidade.

Candidatos mais experientes na gestão - como Márcio França (PSB), Jilmar Tatto (PT)  e Bruno Covas (PSDB) - aproveitaram seus conhecimentos sobre a máquina como fatores de diferenciação e legitimação. Por outro lado, Guilherme Boulos (PSOL) e Arthur do Val  (Patriota) buscaram se legitimar como novidades. Boulos surpreendeu por seu conhecimento da cidade e das propostas da candidatura.

Já para Russomanno, sobraram platitudes e palavras genéricas que colam bem em um apresentador, mas não convencem o eleitorado. Além disso, o candidato parecia estar na defensiva, gastando seu tempo para responder a críticas de adversários e subir o tom da agressividade.

Como esperado, as agendas sobre uso da cidade tomaram bom espaço do debate. Mobilidade, transporte urbano, enchentes e moradia foram os temas em que o debate conseguiu avançar mais, expondo as propostas diferentes dos candidatos, baseadas em distintas visões sobre a cidade. Cidade para carros ou para pessoas? Transporte público ou privado? Moradia via financiamento ou PPPs? É nestes temas que as candidaturas parecem estar mais preparadas e maduras.

No entanto, embora elas tomem boa parte do cotidiano da gestão, estão longe de serem as únicas pautas. Neste sentido, os temas de políticas sociais foram raros ou ausentes. Educação, assistência social e saúde foram trazidos poucas vezes e, quando apareceram, vieram em geral de maneira abrangente, sem propostas concretas e sem um avanço de pautas e políticas.

O tema da pandemia também foi, surpreendentemente, bastante ausente no debate. Embora esteja claro que a agenda da pandemia e suas consequências será uma das pautas prioritárias da próxima gestão, os candidatos parecem não dar a devida atenção. Mesmo que a vacina saia no curto prazo, o que não sabemos se ocorrerá, as consequências para a cidade serão sentidas por um longo período.

Neste sentido, faltaram bons debates e propostas sobre como retomar a economia, como reestruturar os serviços de saúde abalados pela crise, como retomar as aulas (remotas?) e como cuidar da população em situação de vulnerabilidade que só cresceu neste período, entre outros. A sensação é que os candidatos estão planejando uma gestão para momentos de "normalidade", sem crise. E isso parece ser ilusório porque, mesmo que temas como mobilidade e enchente sejam essenciais, certamente eles não serão a tônica do início da gestão. 

Ainda assim, o debate mostra a relevância do confronto entre candidatos no processo eleitoral. Ao tentarem se diferenciar por meio das propostas e visões de cidade, os candidatos conseguem expor aos eleitores suas posições e convencê-los (ou não) do conhecimento de causa que possuem. Independente de quem ganhe o pleito, com processos assim ganhamos nós, eleitores/as e cidadãos/ãs, que podemos aprofundar no debate sobre a cidade queremos.

* PROFESSORA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DA FGV

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