Análise: Bolsonaro é um produto das circunstâncias

Bolsonaro não é fenômeno de mídia nem resultado do recall de eleições anteriores

Carlos Melo, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2018 | 05h00

Antes de tudo, errou feio quem, lá atrás, viu em Jair Bolsonaro uma espécie de Celso Russomanno. Ao contrário do deputado da TV, ele não derreteu com a campanha. O populismo do qual ambos são feitos tem barro diferente. Bolsonaro não é fenômeno de mídia nem resultado do recall de eleições anteriores. Trata-se de fenômeno com raízes fincadas na formação e na história política brasileira. 

Desde sempre o Brasil possui uma direita belicista e reativa nos costumes. Foi assim com o Integralismo de Plínio Salgado, parte considerável da UDN, a Arena, o PDS e o malufismo. Quem não se lembra de Paulo Maluf prometendo “colocar a Rota na rua”? 

Em 1998, Maluf era tão relevante que Fernando Henrique Cardoso se submeteu e resignou-se com outdoors ao seu lado, contrariando Mário Covas. Com o ocaso de Maluf, a direita ficou órfã de um político que representasse seus valores e projetos. Os candidatos do PSDB ocuparam esse espaço apenas como inquilinos ocasionais.

Em 2013, a partir das manifestações que contestavam o sistema, o Estado e a qualidade dos serviços, a esquerda e a corrupção, este setor voltou a se organizar e a enxergar em Jair Bolsonaro um representante de seus anseios de ordem, resistência cultural e segurança. Outro aspecto que o favoreceu foi pouco a pouco sinalizar para atores econômicos assustados com o intervencionismo estatal e desejosos de uma prática liberal radical na economia. Setores que têm ojeriza ao PT e não mais confiam na força e na disposição dos tucanos. 

Paradoxal, a mistura liberalismo e nacionalismo se deu na fusão do capitão com o economista Paulo Guedes. Intuitivamente ou não, passou a expressar a agenda que empresários e operadores de mercado ansiavam. 

Em paralelo, houve a Operação Lava Jato, que varreu PT, PSDB e MDB. Ao contrário de Maluf, Bolsonaro não carregava forte ônus nesse sentido e pôde se favorecer da indignação popular com a corrupção do sistema. Condições que lhe deram pista livre para decolar.

Também os erros dos principais adversários ajudaram. Primeiro, o PSDB: na omissão com Aécio Neves, na contaminação com Michel Temer e na campanha de Alckmin que aguçou e esquentou o antipetismo, entregando-o a Bolsonaro, o legítimo e mais feroz antagonista do PT. Depois, na errática campanha petista. Por fim, o atentado que lhe retirou do perigoso circuito de debates e críticas, que tornam mais vulneráveis os iniciantes como Bolsonaro. Ele não brotou do chão: é resultado de uma combinação de fatores. As circunstâncias são mais importantes que os atores.

* É PROFESSOR DO INSPER

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